PSSARO CONTRA A VIDRAA

Giselda Laporta Nicolelis


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Capa e ilustraes de

Danilo Barros da Fonseca
e Fernando Rodrigues


Coleo Veredas

=111

EDITORA
MODERNA


Coordenao editorial: Maristela Petrili de Almeida Leite
Preparao de originais: Luiz Vicente Vieira Filho (coordenador),

Margaret Presser (preparadora)
Reviso: Lisabeth Bansi Giatti (coordenadora)
Artes: Sidnei Moura (coordenador)
Capa e ilustraes: Fernando Rodrigues e Danilo Barros da Fonseca

IMPRESSO E ACABAMhNTO
thirtira Grafica e kdilora Lida

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Nicollis, Giselda Laporta.

Pssaro contra a vidraa / Giselda Laporta
Nicollis ; capa e ilustraes de Fernando
Rodrigues e Danilo Barros da Fonseca. - So
Paulo: Moderna, 1992. - (Coleo veredas)

1. Literatura infanto-juvenil I. Rodrigues,
Fernando. II. Fonseca, Danilo Barros da. in.
Ttulo. IV. Srie.

92-1166 CDD-028.5

ndices para catlogo sistemtico:

1. Literatura infanto-juvenil 028.5

2. Literatura juvenil 028.5

ISBN 85-16-00678-6
e\ervado\

EDITORA MODERNA LTDA.

Rua Padre Adelino, 758 - Beleimnho

So Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-904

Vendai e Atendimento Tel (0__11) 6090-1500

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2001

imprenso no Brasil


Para a doutora Patrizia D. Streparava,
que muito me auxiliou na elaborao
deste livro.


 preciso

arrancar alegria

ao futuro.
Nesta vida

morrer no  difcil.
O difcil

 a vida e seu ofcio.

Maiakvski, 1926

(traduo de Haroldo de Campos)


Estava sozinha em casa quando o telefone tocou. O carrilho
 acabara de bater onze horas. Pensou: " meu filho!"
Precipitou-se para o telefone:

- Al?

- Quem est falando? - disse uma voz jovem do outro
lado do fio. No era  do seu filho.

- Juliana - respondeu. - Quer falar com quem?

- Com voc mesma.

- Quem est falando? - A voz era completamente desconhecida
 para ela.

- Que importa o meu nome? Estou precisando de ajuda.

-  caso de doena? Telefone para o pronto-socorro... Ou
ento para a polcia. O nmero ...

- No  nada disso - disse a voz. - Eu preciso falar com
algum, s isso. Voc tem a voz parecida com a da minha me.

- E onde est sua me? - Ela nem sabia por que continuava
 aquela conversa to estranha. Costumava desligar quando
acontecia isso, detestava trotes.

- Est viajando. Ela e o pai. S voltam na semana que
vem...


- E os seus irmos, a sua famlia...? Eles no podem
ajudar voc?

- Sou filho nico, e o resto no conta, voc sabe...

- No, no sei. Olha, sinto muito, mas no o conheo, no
faz sentido ficar falando ao telefone com um estranho. Daqui a
pouco meu marido chega e pode ficar chateado, voc sabe.

- No, no sei. - Do outro lado do fio veio um riso nervoso.
 - Nunca fui casado.

- Olha, garoto, j chega, t? you desligar.
Ele suplicou:

- No faa isso, pelo amor de Deus, no faa isso!

Por que aquele garoto estranho ligara, afinal? Talvez tivesse
 a idade de seu filho. Sentiu pena.

- Tudo bem, s mais um pouco, quem sabe eu posso ajudar.
 Qual  o seu problema?

Um instante de silncio. Ela at pensou que ele tivesse
desligado ou que a linha tivesse cado. Mas logo escutou a voz
novamente:

- Meu nome  Igor.

- E da? Eu quero saber qual  o seu problema. Tanto faz
se voc se chama Paulo ou Pedro ou...

- Meu nome  Igor, Igor com i - repetiu. - E no gosto
do meu nome.

- Por qu? At que  um nome bem bonito. Pra falar a
verdade tambm no gosto do meu.

- Eu acho bonito - disse ele. - Tive uma namorada chamada
 Juliana... Ela era legal paca. Por que voc no gosta do
seu nome?

- Nem sei, mas no gosto. A gente devia nascer com um
nmero. Quando crescesse escolhia um nome... da preferncia
da gente, no acha?

- Voc tambm  legal - disse Igor. - Acho que a gente
pode se entender.

- Como, se entender? - Ela comeava a ficar irritada.
- Eu s perguntei do seu problema, voc disse que precisa de
ajuda. Est doente?


- De certa forma - concordou ele. - Eu posso dizer que
estou doente, sim, mas no  bem uma doena...

Juliana fez um gesto de impacincia, ainda bem que ele no
podia v-la.

- Explique-se melhor, criatura.

- Me chame pelo meu nome, eu tenho identidade - disse ele.

- O.k., Igor, quantos anos voc tem?

- Dezoito.

A idade do filho dela, exatamente como havia pensado.
Imaginou seu filho, algum dia, ligando para uma desconhecida,
pedindo ajuda. Ele nunca faria isso, tinha pai, me, irmos, no
tinha? Ou poderia acontecer tambm?

- Com dezoito anos a gente no tem problemas - se ouviu
 dizendo, mas sem acreditar muito. - A gente tem a vida
pela frente...

- No sei, no. No curto muito a vida...

- Que bobagem, Igor! A vida  uma coisa maravilhosa,
no tem coisa melhor do que acordar toda manh e...

- Pra qu?

- Como, pra qu?

-  - insistiu Igor. - Acordar pra qu?

- Ora, para viver, fazer coisas, planos, trabalhar, amar...

- Eu tenho medo do amanh... Eu tenho medo de acordar,
 foda...

- Por favor, no diga palavro, no estou acostumada...
O outro riu, uma risada murcha:

- E a que voc est acostumada?

- A uma linguagem civilizada...

- Eu no sou muito civilizado, no, eu sou meio maluco,
sabe? Agora mesmo eu to bem maluco...

Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Com quem estaria falando?
 Podia ser um marginal! Daqueles que telefonam antes pra
saber se h algum em casa e depois vm assaltar. E se ele fosse
um deles? Podia estar falando com ela ao telefone enquanto os
outros foravam a porta...

- No  isso que voc est pensando, no. - Ele parecia
ler os pensamentos dela. - Eu sou meio pirado, s isso, e fico
mais pirado ainda quando...


- Quando o qu? - Ela ainda sentia medo.

- Quando eu me drogo, sabe, quando me ligo nesses
baratos...

- O qu? - ela quase gritou ao telefone. - Voc t querendo
 me dizer que  um dependente de drogas?

- Sou - disse ele. - T chocada?
Procurou dizer as palavras certas:

- Estou, confesso que estou. Nunca conversei com um dependente
 de drogas...

- Sempre tem a primeira vez... E preciso de ajuda, por
isso telefonei.

Ela no entendia mais nada. Estava sozinha, esperando a
ligao do filho, o marido tinha sado. E essa, agora? Por que
aquele rapaz teria ligado para sua casa? Seria algum conhecido,
ou teria simplesmente aberto a lista telefnica? Ser que no se
podia mais pr nem o nmero na lista, meu Deus? Esse mundo
estava perdido. J no chegavam os trotes obscenos? Essa, agora!

- Voc ainda est a? - ele perguntou, uma ponta de angstia
 na voz.

- Estou - ela disse.

- Ento converse comigo, por favor, s um pouco, converse
 comigo.

- Meu marido vai chegar, pode achar ruim.

- Voc tem tanto medo dele assim?

- No, no tenho medo, tenho respeito. Ele no ia gostar
de me ver falando com um estranho, e ainda por cima...

- Puxa, voc  preconceituosa, hein? - disse ele. - E se
eu fosse seu filho?

Juliana ficou em silncio. Ele continuou:

- Ele podia ser um dependente como eu... E se ele ligasse
pedindo ajuda, voc diria que no podia falar com ele porque o
seu marido tava pra chegar?

Foi como um murro na cara:

- Como voc sabe que eu tenho um filho?

- No sei, s chutei, todo mundo tem filhos. Mas voc no
me respondeu: voc desligaria na cara do seu filho?

- Claro que no... O Lauro ia entender.

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- Quem  o Lauro? O pai do seu filho?

Ela no tinha que responder nada, que diabo! No era ela
quem precisava de ajuda, era ele. Por que ento a submetia quele
 interrogatrio?

- No, o Lauro no  o pai do meu filho.  o padrasto dele.

- Ah! - fez ele do outro lado da linha. - Isso no muda
muito a coisa. E se eu fosse seu filho?

- Eu j disse, ele ia entender, quer dizer, o Lauro, voc
est me deixando confusa...

- Tem certeza de que ele ia entender? Voc ficou chocada
s de ouvir um estranho dizer que  dependente de drogas. Como
pode ter certeza de que no ficaria mais chocada ainda se o seu
filho lhe dissesse isso?

- Acontece que voc no  o meu filho coisa nenhuma.
Meu filho  timo! Trabalha, estuda, no se mete com drogas...

- Tem certeza?
Ficou mais que furiosa:

- Claro que tenho certeza, ento no conheo meu filho?
Ele nunca se meteria com...

- Onde est o seu filho agora? - Era impertinente esse
rapaz, como se atrevia a...

- Eu no sei, a essa hora deve estar na casa dele e...

- U, ele no mora com voc? - O outro parecia estar se
divertindo.

- No mora, no, mora com o pai...

- Gozado - disse ele. - Se a minha me casasse de
novo, eu ia querer morar com ela. Por que o seu filho mora com
o pai?

Quase desligou o telefone, mas de alguma forma tambm
estava lhe fazendo bem conversar com aquele estranho... To
sozinha... Nem a possvel chegada do marido tinha mais tanta
importncia.

- E uma histria comprida - disse ela. - Muito comprida.
 E no fico contando a minha vida para estranhos.

- Por que no? - A voz dele parecia mais aguda. - 
mais fcil contar a vida da gente para um estranho. Por isso li11




guei um nmero qualquer da minha cabea. Voc no me conhece,
 no pode me julgar, e pode at me ajudar...

- , pode ser. - Ele tinha respondido  sua pergunta, ligara
 um nmero a esmo, no a conhecia nem  sua famlia, que
alvio!

- Vamos fazer um trato - disse ele.

- Que tipo de trato?

- Eu conto a minha vida e depois voc conta a sua...

- Que asneira! Quem disse que eu quero contar a minha
vida pra voc ou pra quem quer que seja?

- Que mal h? Voc no me conhece, eu poderia ser seu
filho, no poderia? A gente conta tudo, e quem sabe at ajuda
um ao outro. Depois eu desligo e voc nunca vai saber quem eu
sou...

"Que loucura!", pensou. "Que loucura!" Mas... O garoto
tinha razo: que mal havia? Uma conversa ao telefone, no meio
da noite, ela estava to sozinha... No tinha com quem desabafar.
 Pra falar a verdade, nem sabia se o marido voltaria... Sara
to aborrecido com ela... Talvez at ficasse na casa da irm...
Ele sempre corria pra l quando tinha problemas. "Por que no,
por que no, por que no?"

- Est bem - disse. - Aceito o trato. Voc comea, depois
 falo eu. E ningum julga ningum, t bom?

- T legal - concordou ele. - Vai ser o maior barato.

- Deixa eu acender um cigarro...

- Voc fuma, ? Fumar tambm  vcio.

- Ah, quem fala, deixe de ser cnico, rapaz, voc no tem
moral...

- Eh, eh, eh, lembra do trato? Ningum julga ningum, t
legal? Seno eu desligo e no tem papo nenhum. Alis, eu to
doido pra repetir a...

- No faz isso, no - ela pediu, como pediria ao seu filho,
 se ele estivesse ali do outro lado da linha. - Vamos conversar,
 numa boa.

- T legal. - Ele suspirou fundo, fez uma pausa. - Meu
nome  Igor...

- Eu sei.

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- Deixa eu falar da minha me - ele comeou. - Ela se
chama Renata,  loira de olhos verdes, uma gatona. Anda na ltima
 moda, vaidosa como ela s. Nunca vi minha me desarrumada,
 com o cabelo fora do lugar. At parece modelo de revista.

 formada em faculdade, mas no trabalha, o Rogrio diz
que ela no precisa disso, que ele  bastante homem pra sustentar
mulher e filho.

A me s vive, quer dizer, bate perna o dia inteiro. Faz
compra, tem aula de natao, ginstica, vai ao clube, cabeleireiro.
 Um dia at perguntei:

- Renata, voc no gostaria de trabalhar? A me do Pedro
trabalha,  um barato, ela  mdica.

- Como, trabalhar? - A me fez uma cara assustada, foi
at gozado.

- , trabalhar, Renata - insisti. - At parece que voc
veio de outro planeta...

A me fez um discurso: que o pai no deixava ela trabalhar,
que bem que ela tinha tentado anos atrs - antes de ele nascer,
claro, porque depois ficou difcil, empregada era coisa cada vez

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mais rara, carecia o maior cuidado, seno colocava ladra dentro

de casa e...

 Mas voc tem duas empregadas h anos... E eu j cresci.
 Voc pode trabalhar, ia ser uma boa.

 pra quem? - A me arregalou os olhos verdes, muito

bem delineados com rimei.

- Ora, pra voc, pra todo mundo.

- Bobagem. Seu pai no deixa.

- Mas voc nem tenta.

A Renata pegou a chave do carro em cima da mesa e foi 
luta, quer dizer, foi  festa de aniversrio da filha de uma amiga,
numa casa de ch badalada.

Fiquei sozinho em casa, com as empregadas. Alis, eu ficava
 sozinho quase o tempo tdo. Sentia saudade do v Leonardo,
que morou uns tempos com a gente depois que ficou vivo. Meu
v era legal, gostava de contar histrias da mocidade dele, conversava
 muito. Depois que o v tambm partiu, fiquei ainda mais
sozinho.

Meu pai  empresrio, mas pensa que ele vive na moleza?
D um puta duro, levanta s seis, s sete j est esquentando o
carro l na garagem...

A Renata nem acorda. S vai aparecer l pelas onze, banho
tomado, o caf na mesa esperando por ela: papaia cortado no
meio, torradas quentes. A Lena faz tudo direitinho.

Quando eu volto do colgio, a me j est saindo, toda arrumada,
 na maior estica, pra almoar com as amigas, fazer compras,
todo dia o mesmo babado, no sei como ela no enjoa, p!

Mas ela sempre diz que varia muito. Abre shopping novo,
l vai ela com as amigas. O que roda aquele carro! O Rogrio
sempre diz que ela gasta mais combustvel do que se fosse
vendedora da firma dele... Ao que a me retruca, enfezada:

- Acontece que eu no sou.
E ento o pai cala a boca.

O pai  um cara legal, ele faz qualquer coisa pra no brigar,
ele no tem saco pra briga.  como eu... A me encomprida
muito a coisa, o pai vai logo dizendo:

- No precisa complicar, Renata, j entendi.

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- Mas eu nem comecei a contar direito, Rogrio - reclama
 a me.

Mas no adianta, porque o pai vai logo abrindo o jornal e
fica assim como um muro de Berlim (quando ainda havia, n?)
entre os dois... Com o pai no tem papo, ele encerra logo a
conversa.

Nunca vi o Rogrio e a Renata brigando, briga feia de berro,
 de jeito nenhum. Tenho uns colegas que os pais brigam pra
valer: sai gritaria, tem at quem atire coisas um no outro, uma
baixaria, eu fico at besta de ver, porque so pessoas finas, bemeducadas,
 quando brigam parece que esto numa favela... (, eu
acho que sou meio preconceituoso, tambm, s vezes eu penso
nisso, como agora. Por que gente rica tem que ser bem-educada,
e quem mora em favela ou cortio tem de ser mal-educado? A
gente sempre tem um preconceito escondido na manga, n, que
gozado!)

Mas como eu ia dizendo, o Rogrio e a Renata brigam
quietos,  uma forma at pior de brigar, eu acho. Soltam uns olhares
 assim como chispas, parece que um tem dio do outro, me d
uma sensao esquisita quando percebo isso.

No sei por que esse dio, no entendo. O pai nunca quis
que a me trabalhasse, e ela vive jogando isso na cara dele -
mas ser que ela no trabalha s porque o pai no quer?

Eu tenho minhas dvidas sobre isso, ah se tenho. Afinal ela
 uma pessoa, no uma lesma. Se ela quisesse mesmo trabalhar,
quem ia impedir? Acho que ela usa essa desculpa pra no enfrentar
 a verdade: que ela mesma  que se acomodou e no quis
trabalhar coisa nenhuma. E fim de papo. Mas se eu disser isso
pra ela, a Renata vira bicho!

O Rogrio  muito bonito tambm, at minhas colegas dizem:
 - Teu pai  um gato!

Ele casou novo, tem uns quarenta agora, e gosta de se arrumar
 tambm, roupas de griffe, esses baratos.

A Renata morre de cimes dele, principalmente das secretrias.
 O Rogrio  um empresrio bem-sucedido, ento tem muitas
 secretrias em volta, todas muito arrumadas, perfumadas.

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A Renata de vez em quando d uma incerta l no escritrio. O
Rogrio fica louco da vida! Diz que no gosta de ser controlado.
Da comea a beber, e pe bebida nisso.

- Eu no confio nem nele nem nelas - diz a me, e me
vem aquela sensao gozada: a gente devia poder confiar mais
nas pessoas, devia ser to bom amar algum e poder confiar, ou
pelo menos no desconfiar tanto. Ento, por cimes, a me vive
se enfeitando, muda a cor do cabelo, faz plstica, a Renata tem
pavor de envelhecer. Vive se olhando no espelho, acho que procurando
 ruga, que aflio, ela perde mais tempo nisso do que
vivendo... Alm disso ela no passa sem calmante, no dorme
sem ele, vive pegando receita no mdico, ou arranjando com as
amigas que tm marido mdico.

Claro que eu you no colgio, ainda estou no primeiro colegial,
 estou meio atrasado, sabe... J era pra estar no terceiro,
fazendo cursinho, esses baratos. Mas, tenho at vergonha de dizer,
 andei repetindo muito, tive uns problemas.

Como  a escola? Sabe como , colgio de classe mdia
alta. Tem uns macetes. A gente tem de andar na moda, com as
griffes certas, fejeans, de tnis,  como um conjunto de leis noescritas
 que todo mundo segue: relgio da moda, caneta, camiseta.
 .. Se um sair dos trilhos, que se agente, j no faz mais parte
da turma, vira esculacho.

Com o Roberval foi assim: era um carinha pobre, filho do
porteiro l do colgio. Estudava em escola pblica, outros baratos.
 Da pintou uma bolsa de estudos pra ele, no colgio. Claro
que ele encarou, mas do jeito dele, n? Tnis vagabundo, camiseta
 larga de to lavada, caneta bic... Foi uma gozao que at
deu pena...

S que o cara  da pesada, quer dizer,  um crnio, d de
dez a um na gurizada ali do colgio. Um c-d-efe de primeira.
Ento ele durou porque tinha raa e ajudava muito os colegas.
Mas, mesmo assim, o que fizeram ele de palhao, nem conto.
Depois volto a falar do Roberval, ele se tornou muito importante
na minha vida...

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O Rogrio solta a grana que eu quero e eu ainda levo outro
tanto da Renata. Nem preciso abrir a boca, eles perguntam:

- T precisando de dinheiro, Igor?

Acho que pra eles a vida sempre foi movida a dinheiro, quer
dizer, pra mim tambm, s que s vezes fico meio confuso: ento
quem no tem dinheiro no presta pra nada? O Srgio, que era
meu colega, costumava dizer que pobre serve pra trs coisas:
encher nibus e metr, sair na avenida em escola de samba (pra
se vestir de rei por um dia) e... ser preso!

O Srgio era o maior conquistador ali do colgio, ganhava
muitas gatinhas por ser atltico, vivia na musculao... quer dizer,
 isso at... Acho que tentei ser igual a ele, de tanto que a
Renata me encheu o saco, que eu precisava ficar mais forte porque
 as gatinhas gostavam. Eu detestava aquilo, j no bastava o
Srgio me aporrinhando com as conquistas dele?

Ele vivia rindo das novelas de televiso que contam histrias
 mirabolantes do rapaz rico que sempre casa com a gatinha
pobre. Ele dizia assim:

- Deixa elas acreditarem que  verdade, fica bem mais fcil.
O Srgio s vezes parecia o Rogrio falando, uma frieza

que at dava medo. Como se ele fosse mais filho do meu pai do
que eu...

O pai do Srgio  empresrio tambm, e amigo do Rogrio.
s vezes eles se reuniam pra jogar xadrez e beber, tudo que eles
faziam era movido a usque. Os pais dele e os meus jantavam
fora, iam a teatros, viajavam pelo exterior... Da a minha casa
virava um deserto, pintava a maior solido. Que saudade me dava
do v!

Eu tentava viajar com os coroas, mas a Renata sempre dizia:

- Viaja com o pessoal da tua idade. O que voc vai fazer
com quatro coroas em volta?

Ou seria o contrrio: o que eles iam fazer comigo em volta
deles? Ento eu acampava muito com a turma ou passava frias
na fazenda, ou do coroa ou de algum amigo meu.

Gosto do Rogrio e da Renata, sempre gostei. Alis, voc
percebeu, nem chamo os coroas de pai e me, chamo pelo nome.

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A Renata adora, diz que deixa ela mais jovem. At avisou que,
quando eu me amarrar, os meus filhos vo cham-la de Renata
tambm, que jamais ousem cham-la de av, porque no vai
admitir. Coitados dos moleques, sempre gostei tanto de chamar
a v de v, e ela adorava... O que foi que mudou? Foi o mundo
ou foram as avs?

Quando fiz aniversrio o ano passado, o Rogrio no estava.
 Teve de viajar, negcio urgente. Achei um cheque em cima
da mesa, com um recado: "Voc j tem tudo, menos juzo. Escolha
 o seu presente. Abrao, Rogrio".

Fiquei olhando o cheque ali em cima da mesa: que coisa
besta, meu! Nem um presente pra desembrulhar, podia at ser
repetido, eu tinha tudo mesmo (ou ele pensava que eu tinha, porque
 tinha vendido uma p de coisa), mas sempre existe alguma
coisa pra se comprar, no existe? Ganhar um cheque at parecia
indenizao: "Olha, pra compensar eu ter posto voc no mundo.
No esquenta, no!"

T bom que eu nem merecia presente, eu tava no maior sufoco,
 repetindo de ano e tudo mais. E nunca consegui entender
direito os meus coroas, a me me prometeu o que eu tava querendo
 adoidado... uma moto! S que deu o maior rebu l em
casa, porque o pai era contra e disse:

- No me d moto pr Igor, que ele anda meio maluco e
vai se arrebentar por a. E nem fez nada pra merecer.

A me adorava contrariar o pai. Veio toda sorridente:

- Vai l na garagem olhar o teu presente.

P, que presento! A moto era uma Honda CB de 750
cilindradas, toda preta, e at o capacete tava me esperando.

- Valeu, Renata, valeu mesmo. E agora, o pai, como  que
fica?

- Deixa comigo - disse a me. - Eu dobro ele.

Foi um ms de briga l em casa. O pai achou que a Renata
passou dos limites. Eu repetindo de ano no colgio, e a me me
paparicando daquele jeito. E ainda mandou a conta da moto pra
ele pagar. O Rogrio gritava, de copo na mo:

- Se quisesse dar essa porcaria de moto pr seu filho se
arrebentar, desse com o seu dinheiro, no com o meu!

18


- E eu tenho dinheiro, por acaso? - replicou a Renata.

- No tem porque  uma intil que no faz nada na vida,
s serve pra gastar dinheiro e bater papo com outras inteis como
voc...

- O que voc est dizendo? - gritou a Renata. - Voc
nunca me deixou trabalhar, agora vem com cobrana? Vai pagar
as contas direitinho, ou pensa que s vai gastar dinheiro com
aquelas vadias que te rodeiam?

O nvel tava baixando de novo, e o Rogrio arregava. Saa
cada vez mais cedo e voltava cada vez mais tarde. Eu quase no
via mais ele. E a Renata s falando:

- you pr um detetive atrs dele, pego ele em flagrante...
Eu s ficava imaginando: a Renata ia pagar um detetive,

com o dinheiro do Rogrio, pra seguir ele mesmo, mas que coisa,
 meu, imagine se o pai descobrisse! Ia ser a terceira guerra
mundial...

s vezes me dava um desnimo... Se algum dia eu conseguisse
 terminar o colegial, ia ter que prestar vestibular de administrao
 de empresas, porque o Rogrio tinha exigido:

- Presta administrao, depois vem me ajudar aqui na
empresa...

- Mas, Rogrio, eu no gosto de administrao - tentava
falar. - Eu prefiro medicina.

- T decidido, no discuta comigo, voc vai fazer administrao.
 Nem que seja na marra. No trabalhei todos estes anos
pra dar de bandeja a minha empresa pra qualquer um...

- E se eu fizesse as duas? - arrisquei.

- Deixa de sonhar, cara - disse o pai, pondo gelo no copo
e despejando usque. -Voc nem consegue passar de ano...
Esquea!

S que ele no sabia que eu tinha entrado no colegial de
biolgicas, escondido. O meu sonho era ser mdico. At quando
eu ia segurar essa, no tinha a menor idia... Minha vida era
toda feita de mentira mesmo.

19


Quando eu comecei a me drogar?  uma longa histria...
Tudo bem, eu conto, foi pra isso mesmo que eu liguei, no foi?
Voc est sentada? Ento senta. Olha, no pensa que foi
pipoqueiro ou dono de cantina quem forneceu a droga, isso 
fantasia.

L no colgio, eu tinha uma turma. A gente no era ningum
se no tivesse uma turma. A minha eram o Srgio, o Leandro, o
Thiago e o Roberval. Roberval era o carinha da bolsa de estudos,
lembra?

A gente aceitou ele na turma por um motivo s: ele era o
melhor da classe. Nessas matrias caretas, voc sabe, matemtica,
 portugus, levava a coisa mesmo a srio. O pai dele era porteiro
 l no colgio, acho que eu j disse, e a me era enfermeira
num hospital. Ento acho que ele precisava mostrar servio prs
coroas.

No comeo, a gente nem queria ele na turma, com aquela
roupa uc, tnis idem, dava bandeira demais. Mas quando a coisa
apertava, o Srgio dizia:

- Chama o Roberval, engrupe ele que ele tira a gente do
aperto...

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Ento a gente engrupia: fingia que gostava dele, e o boboca
engolia, na maior. E se achava todo importante de fazer parte da
turma, como se fosse "igual", sacou? Pretenso do bicho.

O Roberval tinha uma facilidade pra entender as matrias
que at dava raiva: pegava tudo no ar, e depois estudava duro.
Quando a gente chegava na segunda e ficava contando o fim de
semana - um tinha ido pr Guaruj, outro pra Ubatuba, outro
pra fazenda -, algum perguntava:

- E voc, Roberval?

Ele s dizia: - Fiquei estudando... - Pode?

Foi assim que o Roberval entrou pra turma. Ajudava nas
lies, mastigava as provas, fazia resumo, era um gnio! A gente
era tudo moleque ainda, mas j sabia levar vantagem. Como o
pai sempre dizia, "quem no leva vantagem  otrio".

Um dia, a gente se reuniu l na casa do Srgio pra estudar.
A casa dele  legal, tem piscina, esses baratos. Eu moro em ap,
no d pra fazer tanto alala. E ele convidou o Roberval tambm,
 porque no dia seguinte ia ter uma prova de lascar.

L pr meio da coisa, o Srgio falou:

- Tenho uma surpresa pra vocs...

A gente era tudo moleque, tava no primeiro grau, ainda. Os
coroas tinham sado, ali funcionava mais ou menos como na minha
 casa, o pai trabalhando o dia inteiro e a me batendo perna
por a, com as amigas, se duvidasse ela tinha sado com a Renata.

O Srgio foi l dentro e voltou muito misterioso com um
saquinho plstico na mo. E disse:

- Olha, isso  coisa de pivete, mas  bom pra danar. Eu j
experimentei.  s abrir e cheirar.

Eu no era to santo assim... Na minha casa rolava muita
coisa e you ser sincero contigo. Quando eu ficava na pior fazia
como o Rogrio e a Renata: apelava. Tomava uns drinques, assim
 na surdina, e at passava a mo nos calmantes da coroa e
eles nem percebiam. Mas aquilo eu no tinha experimentado
ainda...

- Vamos nessa, Igor - convidou o Srgio.

21


Deu uma curiosidade, uma coisa louca. Depois, eu  que
no ia mancar e dar vexame logo na frente da turma. Mas, s pra
saber, perguntei:

- Que barato  esse?

- Cola de sapateiro, cara. E  barato mesmo. Coisa de pivete,
 como falei, mas d uma alegria...

- D aqui - pedi.

O Srgio passou pra mim o tal saquinho:

- Sopra e depois respira fundo...

Soprei e dei aquela aspirada... E fui respirando, sem parar.
Da o Srgio me arrancou o saquinho das mos:

- No  s pra voc, cara, deixe os outros darem uma
cheirada tambm...

O saquinho passou de mo em mo... e todos cheiraram a
cola. Quer dizer, o Roberval no quis, aquele careto. Disse que
tinha bronquite, que no podia cheirar que passava mal. Que
nada, foi embromao dele, preferiu ligar a box, arregou feio.

Foi a que o Leandro comeou a passar mal: suou muito,
ficou gelado, branco como leite e de lbios roxos. Achei que ele
ia apagar. A gente deitou ele no sof e... aos poucos foi melhorando.
 P, que susto! Cheirei tudo o que tinha direito, e fiquei na
maior excitao. Parecia que o mundo girava como roda-gigante
solta no espao...

E o Srgio garantiu:

- Eu arranjo mais.

- V se no d uma de dedo-duro, hein Roberval? - falei.
 - Se voc abrir o bico a gente te pega.

A essa altura, claro, ningum estudava mais, n? O Roberval
 tava assim de lado, dando um zapping na box, meio
ressabiado. Nem me respondeu, mas eu sabia que era do bem,
podia confiar, no ia entregar a gente.

Voltei pra casa lembrando a cheirada... Pena que no tinha
mais. Ento, pra tapear, tava sozinho mesmo, tomei mais uns
drinques como o Rogrio fazia. Mas acho que exagerei na dose
porque de noite ele comentou com a Renata:

- Foi voc quem tomou meu usque?

22


- Eu no, voc sabe que detesto usque, s bebo vinho e
champanhe.

- Ento foram as empregadas. No compro usque de doze
anos pra empregada ficar enchendo a cara. V se cuida mais disso.

A me deu um esporro na Lena e na Mrcia, elas s jurando
que no tinham tocado na garrafa. Fui pr quarto, meio envergonhado,
 mas eu l ia contar que tinha sido eu? Nem morto! O
Rogrio ia ficar passado, me comia a alma.

Quando fui jantar, a Mrcia tava chorando l na copa, dizendo
 que no era ladra pra escutar desaforo de patroa, que ia
embora. E a Lena consolando: - No vai, no, a dona Renata s
falou aquilo porque o seu Rogrio  um chato, ela amanh nem
lembra mais...

Da percebi que tinha de tomar mais cuidado com as bebidas.
 Com a me no tinha problema, ela era superdesligada. s
vezes eu tomava meia caixa de calmante e ela nem dava por falta.
Arrumava outra receita e comprava mais.

O Srgio era legal, cumpriu logo a promessa. Apareceu l
no colgio com dois saquinhos de cola e a gente foi pr banheiro
na hora do recreio. E combinamos dizer, se algum perguntasse,
que a gente tinha ido fumar. Todo mundo fumava no banheiro, e
o que podia acontecer? Uma bronca de leve.

S que ficava aquele cheiro de produto de limpeza... Sorte
que confundia com os produtos que as serventes usavam. E a
gente fumava um cigarro ou outro pra confundir mais ainda.

Todo mundo tinha mesada, ento no era difcil comprar a
cola, qualquer loja de ferragens vendia, e era barato. E o vendedor
 nem perguntava nada. Quem mais comprava era o Srgio,
que era alto e musculoso, aparentava mais idade. Ele revendia
pra gente. Mas quando a vontade apertava muito, qualquer um
ia, comprava e depois vendia prs outros.

Depois da cola, um dia... o Leandro veio com uma novidade.
 A gente tava reunido no meu ap, o Roberval nem tinha
ido naquele dia, tava com sarampo, acho que ele no tinha toma23

do a vacina quando pequeno... e o Leandro trouxe o lana-perfume
 pra turma cheirar. Foi o maior barato, todo mundo ficou
grogue, na maior alegria, o diabo foi tirar o cheiro de lana-perfume
 da sala. Mas o Thiago tinha cada idia! Lembrou:

- Voc no tem um aerossol pra tapear?

Fui l na cozinha e a Lena me arranjou um que punha um
cheiro bom na sala, esses baratos, e toca soltar aerossol pra no
dar bandeira prs coroas...

De noite at o Rogrio reclamou:

- Diz pra essas empregadas no exagerarem no aerossol
aqui na sala. Est insuportvel!

Depois do lana-perfume veio o cheirinho-da-lol. Quem
levou fui eu: uma mistura caseira de lcool, ter e clorofrmio,
uma bomba! Aprendi com um garoto mais velho l do colgio.
Levei na casa do Thiago, numa reunio da turma. A gente at
quis obrigar o Roberval a dar uma cheirada de leve, ele ficou
passado:

- No faam isso que eu conto tudo, juro que conto!

Desde esse dia o Roberval ficou de fora, com a condio de
no abrir o bico. A gente tambm cheirava benzina, fcil de
comprar na farmcia e barato, que era a maior curtio: dava um
zumbido no ouvido, o corpo parecia queimar, da... zum, caa
fora da real, a maior alucinao... um pnico: tudo em volta saa
do lugar, at a minha cabea...

Eu cheirava muito, o que aparecia na frente. Vivia nervoso,
irritado, depois entrava em depresso. Os olhos sempre vermelhos,
 congestionados. Dormia de dia e perdia o sono  noite, tinha
 pesadelos. Da eu apelava prs calmantes da Renata.

Claro que o colgio ia pra cucuia. A gente comeou a ir mal
paca nos estudos. Por mais que o Roberval mastigasse, a gente
no aproveitava nada, a cabea a mil. Esquecia logo, parece que
no tinha mais memria nem nada...

A gente at tentou parar a transa das drogas, s cheirar assim
 nas festinhas, ou nas frias, ou quando acampava com a turma
 do colgio.

24


Mas acabava sempre cheirando quando um tava mais pra
baixo, na pior... Sabe, cada um ali tinha um problema: ou os
coroas, ou o colgio, ou os dois juntos. Ou reclamava porque era
sozinho, como eu, ou porque era filho do meio, como o Thiago,
e assim por diante...

Gozado que a gente tinha tudo o que o dinheiro podia comprar,
 mas acho que no tinha o mais importante: no tinha amor!
A soluo dos conflitos, algo em que a gente pudesse se agarrar.
Os coroas sempre batalhando pra conseguir mais grana, comprar
casa na praia, fazenda, viajar pr exterior... ou ento brigando
entre eles... ou ento sem tempo pra conversar, bater uma caixa
legal.

No fundo, no fundo, eu era muito sozinho. E quando tomava
 porre de solido, o jeito era cheirar cola, lana-perfume, cheirinho-da-lol,
 benzina... Ento o mundo ficava azul, ficava bonito,
 um arco-ris s: por alguns instantes, virava astronauta,
vendo tudo azul l do alto! E tinha a iluso besta de que era feliz!

25


Foi mais ou menos nessa poca que os meus pais viajaram
pra Europa. No queriam me deixar sozinho no ap, ento convidaram
 uma tia-av que tambm morava sozinha pra ficar comigo.
 Detestei a idia porque achava ela muito careta, ao contrrio
 dos coroas, que eram superliberais, me davam a maior folga.

J estava indo mal no colgio. Como eu disse, vivia nervoso,
 morria de sono de dia e perdia o sono  noite... E quanto
mais eu transava as drogas, mais me sentia cansado, sem vontade
 pra nada. Depois que passava aquela euforia toda, a vida virava
 uma merda.

A tia Zilah era muito observadora. E um dia perguntou:

- Por que voc est com esses olhos congestionados, menino?
 Parece to nervoso, agitado... Voc tem algum problema?

- Tenho no, tia, impresso sua. Eu to s com conjuntivite.
Eu usava lentes de contato desde pequeno, por causa da

miopia, ento pegou a desculpa, n? Quer dizer, acho que pegou,
porque a tia Zilah me olhou por trs dos culos, largando o jornal:

- Ento precisa ir ao oftalmologista, you marcar hora...

- Precisa no, tia, isso passa, you pr gua boricada
gelada...

26

*iaste;as**--Br''"


Ela me olhou de novo, ressabiada. Mas nunca que nunca
ela ia desconfiar, imagine s, justo a tia Zilah, que era bem coroa.
 Se manjasse a coisa mesmo, acho que tinha um troo.

- Sabe, Igor, eu tenho a maior responsabilidade ficando
com voc, veja s com quem voc anda, os seus pais so muito
modernos, deixam voc solto por a...

- Que  isso, tia? S ando com a turma l do colgio, tudo
gente fina, esquenta no.

- Acho bom - disse a tia Zilah. E voltou para o jornal
dela. Era aposentada, tinha trabalhado mais de trinta anos como
funcionria pblica, era do bem, sacou? Viva, no tinha filhos,
da toda a preocupao de cuidar de um adolescente, como ela
dizia.

Enquanto a tia Zilah estava no meuflat, no dava pra gente
se reunir l, nem pensar. Ento a turma se mandou pra casa do
Srgio, que tava limpa, os coroas dele tinham viajado com os
meus: quarenta dias do maior alala!

L na casa do Srgio eu conheci outra turma, sei l onde ele
tinha arrumado. Gente da pesada, meio trubufu. Tinha um
carinha, o Rodrigo, que transava xarope. , xarope, voc nunca
ouviu dizer? Desses comuns que vendem em farmcia, nem
precisa receita nem nada.

O carinha contou que era uma viagem: comeou com meio
vidro e foi aumentando... Sabe como , conforme o corpo vai se
acostumando precisa mais pra ter aquela mesma sensao de
euforia. Ele no vivia mais sem o tal xarope, tinha uma poro
de marcas, mas com a mesma droga que causava esses baratos
todos.

- Vocs precisam ir nessa - disse o Rodrigo. - J transo
quatro marcas.  s escolher, moleza. E ainda tem mais: se algum
 pegar,  s dizer que t com tosse, ningum manja nada.

- E se a gente transasse tambm? - falou o Srgio. Lgico
 que ele no ia querer ficar por baixo do Rodrigo. Tinha de
dar uma de macho.

Ento a gente foi de xarope tambm. Era diferente, mas servia.
 Deixava a gente num mar aberto... boiando, leve... longe

27


dos problemas. A gente virava mo-nica. S ficava imaginando
os coroas l na Europa, vendo aquelas velharias, entrando e saindo
 de museu. Pagar tanto dinheiro pra isso! Meu negcio era
outro: o coroa tinha me prometido uma viagem pra Orlando, pra
Disney World, s que pintou sacanagem, eles foram primeiro e a
minha viagem ficou pra depois. Porque eles disseram que ficavam
 mais sossegados se eu estivesse no Brasil. Me baixou a
Cara, mas no adiantou nada. Quando eles firmavam o p...
Toca eu ficar com a tia Zilah.

A gente fez o maior alala l na casa do Srgio aquela tarde.
Ele tinha ficado com os irmos, mas estavam todos trabalhando
ou estudando, e as empregadas nem deram as caras.

Voltei bambo proflat, e a tia tava me esperando pra jantar.
Eu nem sentia fome. Alis, quanto mais eu ia de droga, mais eu
perdia o apetite. E o sono tambm. A sorte  que a Renata tinha
esquecido uns calmantes l na mesinha de cabeceira e por uns
dias eu pude me agentar.

- Voc no anda comendo nada, menino - disse a tia
Zilah. - Ser que seus pais no olham isso? Acaba ficando
anmico!

- Que nada, tia, to superlegal.  que eu tomei um lanche
reforado l na casa do Srgio.

No sei por que, mas eu tinha um pressentimento de que a
tia Zilah no acreditava em nada do que eu dizia. Era esperta, a
dona. Imagine se ela fosse a minha me, a coisa ia ficar rua
pr meu lado.

Os coroas voltaram depois de quase dois meses, cheios de
presentes: relgio, brinquedos, roupa - trouxeram muito mais
coisa que a alfndega permitia, mas tudo meio escondido, dentro
das malas, no corpo. E o pai ainda comentou:

- Imagine s, Zilah, que o limite de compras  s quinhentos
 dlares. O que a gente faz com isso?  uma piada!

- Mas no  a lei, Rogrio? - respondeu a tia Zilah,
compenetrada.

- Lei prs otrios, voc acha que a gente pode levar isso a
srio? Quinhentos dlares eu gastava num dia de compras!

28


- Tambm, vocs trouxeram a Europa nas costas - continuou
 a tia Zilah. - No   toa que falam que brasileiro viaja
s pra fazer compras, nem liga pra cultura...

- Voc quer dizer os museus, as igrejas? - riu a Renata.
- At que so bonitos, mas acaba aborrecendo. Era um tal de
entrar em igreja e museu que eu no agentava mais.

- , a Renata tava mais a fim das galerias Lafayette, em
Paris, e das butiques londrinas. Ela quase acabou com o meu
carto de crdito.

- Pois quando estive na Europa nem me preocupei com
isso - disse a tia. - Meu sonho era justamente reencontrar a
Histria... Sabem qual foi uma das minhas maiores emoes?
Ver, na Abadia de Westminster, o tmulo de Jane Austen e
tambm os das irms Bront... das quais eu lera os livros ainda
adolescente. Sem falar na tumba de um cavaleiro medieval de
quase quinhentos anos.

- No sei por qu - disse a Renata. - Me pareceu tudo
to lgubre. Aquelas igrejas gticas onde mal passa a luz...

-  a arte da cantaria - explicou a tia. - Uma verdadeira
preciosidade. E no museu do Vaticano, vocs foram? Na biblioteca
 deve haver um milho de livros, talvez mais. Andei trs
horas l dentro, nem sentia mais ou meus ps.

- Adorei as lojas de Roma - disse Renata. - Ah, aquelas
sedas! E as pastas e sorvetes? Deliciosos. Sabe que engordei dois
quilos? Preciso ir a um spa urgente.

- Por falar em Itlia, vocs chegaram a ir a Assis? - Tia
Zilah parecia uma garota falando, de tanto entusiasmo. - Tivemos
 uma sorte! Havia um frade brasileiro que morava em Assis
h seis meses. Ele nos levou cidade acima, at o monastrio de
Santa Clara. Teve gente que no agentou subir... Fui me arrastando
 pelas vielas e pedindo: "Santa Clara, me faa subir,
me faa subir..."

- E voc conseguiu, tia? - perguntei, interessado.

- Claro que subi, Igor! Eu ia at de galinhas. E como valeu
 a pena! L do alto da cidade tinha uma vista deslumbrante,
das oliveiras e da baslica de So Francisco. Mas o melhor ainda

29


estava por vir. A gente entrou no monastrio e desceu at a cripta...
 e l, atrs de uma grade de ferro, estava Santa Clara, num
esquife de vidro, debaixo do altar, vestida como freira, o corpo
intato depois de mais de setecentos anos da sua morte...

- Ah, tanto esforo - riu Rogrio. - Ns nem quisemos
subir aquelas ladeiras. Fomos almoar.

- Ela estava mesmo assim... o corpo dela? - perguntei
entusiasmado. Aquilo era to diferente, nem sabia que a tia Zilah
contava histrias to curiosas como aquela.

- Foi assim, Igor - explicou ela -, Santa Clara foi enterrada
 no monastrio, em 1253. S no sculo dezenove  que
descobriram a tumba de mrmore. Quando a abriram e o ar entrou,
 dizem que o rosto dela murchou um pouco. Ento colocaram
 uma mscara de esmalte para que o rosto no murchasse
mais... Mas o corpo est intacto. Alis, a Igreja nem leva isso em
considerao, no processo de canonizao dos santos. Prefere
atribuir esse fenmeno  cincia... Mas de So Francisco, que
viveu na mesma poca, s encontraram os ossos...

- Puxa, eu gostaria de ter visto isso, tia! E o tmulo do
cavaleiro medieval tambm. Quando  que vocs me levam pra
Europa?

- Quando voc passar de ano - disse o Rogrio, jogando
gua fria no meu entusiasmo.

Engraado, de repente eu comecei a ver a tia Zilah com outros
 olhos. Ela no era s do bem, a tia viva e sozinha que tinha
ficado cuidando de mim. Ela era legal, uma super-mais-velha!
Nossa, eu deixei ela quase louca! Em vez dos coroas, foi ela
quem me contou toda a sua viagem pela Europa... Eu fazia uma
idia to errada, diferente: ela contando, ficou tudo to legal, um
barato mesmo.

S pra dar uma idia, fiquei vidrado no museu de cera da
Madame Tussaud, que era uma francesa que viveu na poca da
Revoluo. Ela aprendeu a fazer imagens de cera, e se inspirava
em personagens clebres que eram levados para a guilhotina em

30


praa pblica. Depois ela mudou para a Inglaterra, e ficou famosa
 por l. E hoje existe em Londres um museu de cera com o seu
nome, que tem imagens de personagens famosos do mundo inteiro
 em tamanho natural.

Foi to gozado quando a tia Zilah tambm contou que,
quando ela ia saindo do museu, perguntou pra uma mulher
fardada onde era a sada. E todo mundo caiu na gargalhada,
porque tinha perguntado pra uma figura de cera que era sensacional
 de to perfeita, parecia mesmo uma policial.

Eu fiquei triste quando a tia Zilah foi embora. Queria que
ela contasse mais... Ela foi a primeira pessoa que bateu uma caixa
 direito comigo naquela casa, que me tratou como pessoa de
verdade... e me contou tantas histrias bacanas.

Quando ela foi embora, fiquei ainda mais sozinho. Tentei
pedir pra Renata contar das suas andanas pela Europa, como a
tia Zilah, mas a me foi sutil:

- Quer saber, abre a enciclopdia. T tudo l. Muito melhor
 do que eu poderia te explicar.

- Alis, voc nem saberia explicar muito - ironizou o pai.
- Pela ateno que voc prestou na viagem...

- J vem voc implicando de novo comigo - rebateu a
me, e, antes que baixasse a Carrie nela, o pai mudou de assunto.

Que falta me fez a tia Zilah!

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Olha, eu no sou um cara mau, no sou marginal, s fiquei
ligado nesse negcio de drogas. Fiquei dependente, rnas  tudo
uma questo de cabea, entende? Se a minha cabea andasse legal,
 no tinha chegado nisso.

Primeiro que eu me sentia muito sozinho, j falei isso, mas
nunca  demais repetir. Era uma solido muito grande, como se
eu estivesse perdido no mundo.  gozado falar assim, porque
sempre tive o Rogrio e a Renata, mas at parece que no tinha,
uma sensao esquisita.

Acho que  porque eles no conversavam muito comigo,
no tinha dilogo aqui em casa. Gostaria que eles sentassem comigo
 e perguntassem: "Tudo bem, filho? T tudo legal com
voc? Ou t ruo? Pintou bobeira?"

Eu queria tambm chamar eles de pai, me, como todo
mundo. Parece bacana chamar os coroas pelo nome, mas me deixa
 um sentimento estranho, de que eles so meus companheiros,
no meus pais. Eu queria que eles fossem pais de verdade, dando
ordem, exigindo, cobrando... se preocupando comigo! Liberda32




de demais sempre me deu a impresso de que eles no ligam a
mnima pra mim.

Acho at que posso ser injusto com eles, eles tavam na
maior boa-f. Confiavam em mim, quer dizer, no era bem confiana,
 acho que nem por sombra imaginavam que o filho deles
pudesse estar se drogando, nem passava pela cabea deles...
Sabe, so pessoas que pensam assim: "Nada nos atinge, porque
temos posio, dinheiro, amigos importantes... Essas coisas so
pra pivete, no pra filho da gente.

Mas o "filho da gente" t l no colgio com a turma dele. E
s vezes conhece outras turmas da pesada... E comea assim:
um traz cola, outro um lana-perfume, um cheirinho-da-lol, um
vidro de benzina, depois aparece xarope, e por a vai...

Quando percebe t ligado, no passa mais sem as drogas.
Por qu? Ora, por qu! Se voc tem um negcio que te d prazer,
te d alegria, te d assim aquela sensao de estar no paraso, pra
que voc vai voltar pra tua vidinha besta, sem graa, de solido e
tristeza?

Ento a gente vai mais fundo... cheira mais inalante, bebe
mais xarope, e no vive mais sem essa alegria postia, mas de
qualquer jeito alegria, n? S que a droga vai fazendo cada vez
menos efeito, o corpo fica acostumado, ento a gente volta cedo
demais pra tristeza antiga, pra solido... A corre pra droga de
novo, aumenta a dose, porque no d mais pra viver do jeito de
antes, a gente no agenta...

s vezes olho no espelho e tenho medo do que vejo: tenho
s dezoito anos e pareo bem mais velho. Ento lembro daquelas
palestras que faziam no salo do colgio, quando vinham especialistas
 falar sobre drogas. A turma toda ia, enchia o salo com
a cara mais santa do mundo - e o babaca falando l na frente
sem parar: que as drogas mexem com os neurotransmissores, que
so as substncias que fazem a comunicao entre os
neurnios... quer dizer, baguna tudo l na cuca e pode levar at
a morte... O sujeito explicando, todo srio, e a gente na maior
gozao:

- Vai ver os neurnios dele  que no to com nada...

- Faz ele dar urna cheiradinha que ele vai adorar.

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No serviam pra nada aquelas porcarias de palestras, pelo
contrrio: tinha quem sasse ardido de curiosidade pra experimentar,
 e at pedia:

- Como , me arrume um cheirinho a, deve ser bom paca,
do jeito que o cara falou...

E os professores ficavam todos contentes, misso cumprida,
 o diretor do colgio idem, todo importante pelos corredores.
Mal sabiam eles que ali tinha gente que transava droga a mil, e
no era pipoqueiro nem dono de cantina que punha a droga pra
dentro do colgio: os prprios alunos eram os fornecedores, ou,
como o pessoal diz, "as mulas" ou "presenas" que traziam a
encomenda e, como eram tambm dependentes, recebiam dos
traficantes em espcie.

No, no to falando s dos inalantes que a gente comprava
em qualquer loja de ferragem ou mesmo na farmcia - to falando
 de coisa mais brava: de erva e de p. Isso eu te conto daqui a
pouco, deixa eu falar sobre a vida no colgio.

Eu era pssimo aluno, quer dizer, fiquei... Antes ainda
maneirava, no era o primeiro nem o segundo, mas tambm no
fazia feio, no. Ia devagar mas ia. Isso at a transa com as drogas.

Da... mudei demais. Comeou que eu fiquei muito agitado,
nervoso, no tinha pacincia com os professores, nem com
os colegas, com ningum. Tudo era motivo de rebeldia,
agressividade, grosseria. Volta e meia era suspenso das aulas.
Os professores ficaram de marcao comigo e com a minha turma,
 que era conhecida ali no colgio, ningum queria a gente na
classe, mandavam a gente de l pra c... Acontece que o colgio
era particular, custava uma fortuna, e o meu pai e o pai do Srgio,
 por exemplo, tinham sido alunos do colgio, e muito bons
alunos... Ento o diretor fazia mdia, maneirava. Mas a nossa
turma era a ovelha negra da escola.

Eu no estava nem a... Quando dava na telha, armava
mesmo. E me mancava se levava uma egpcia de professor ou de
colega.

Como aquele dia, foi genial! A gente embrulhou uma caixa
com papel de presente e deixou em cima da mesa da professora

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de histria. Ela era um trubufu, no tirava os culos e parecia
sempre de mal com a vida, um eb maldespachado. E ainda por
cima no largava de uma bolsa tringulo-das-bermudas, onde ela
tentava em vo achar alguma coisa...

Ento falamos pr Roberval, aquele trouxa, que era aniversrio
 da professora e que ele, como representante da classe, era
quem entregaria o presente...

- E o que foi que vocs compraram? - quis saber ele.

- Ah,  surpresa! - eu disse. - Na hora voc v.

A dona Slvia entrou na sala e o Roberval, todo importante,
levantou e pegou a caixa l na mesa:

- Com licena, dona Slvia. Em nome da classe ofereo
esta lembrana, com votos de felicidades...

- Por qu? - disse a professora, espantada.

- U, no  o seu aniversrio? - O Roberval foi pego de
surpresa. Mas eu levantei, na maior seriedade, e expliquei:

- Desculpe, ns pensamos que fosse seu aniversrio.

A professora tava ressabiada, no sabia o que responder.
- O meu aniversrio  s no final do ano - ela disse.

- Abre, v, dona Slvia, a gente gastou toda a mesada pra
comprar pra senhora - insistiu o Srgio, fazendo cara de bom
garoto. - At o Roberval colaborou...

O Roberval era o queridinho da dona Slvia. Alis, era o
queridinho da maioria dos professores. Pudera, era o melhor da
classe. Tinha todas as lies em dia, os cadernos em ordem, estudava
 pra prova, era educado, respeitoso, credo, c-d-efe de
primeira, dava at nojo! E ainda por cima era covarde, porque
ficou de bico calado quando o Srgio falou aquilo.

- Muito bem - disse a dona Slvia, decidindo abrir o pacote.
 Afinal, no podia fazer desfeita pr queridinho dela, n?

A r pulou bem na cara da dona Slvia, que caiu dura no
cho. Foi todo mundo parar na diretoria... principalmente o
Roberval, que se descabelava, jurando por todos os santos que
no tinha nada a ver com aquilo. S que ele tinha feito o discurso
de entrega, e ficou meio difcil provar a inocncia dele. Ento
baixou a Carrie nele: jurou a maior vingana, e a gente pagou
pra ver!

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- Seus cretinos, me botarem nessa histria da r. Sabe o
que eu devia fazer, sabe?

- O qu? - perguntei meio assustado. Afinal, tnhamos
telhado de vidro, eu e o resto da turma. E o Roberval sabia.

- S que no you fazer - disse o Roberval -, porque
seno vocs vo ser todos expulsos do colgio e pinta o maior
escndalo...

- Eu posso dizer que voc  o presena que traz a droga
pra dentro do colgio - enfrentou o Srgio. - Em quem eles
iam acreditar, hein? No filho do empresrio ou no filho do
porteiro?

O Roberval ficou com os olhos cheios de lgrimas, at me
deu pena, ele era do bem. O Srgio era meio sdico, tambm no
precisava ameaar o garoto. Mas eu no podia recuar na frente
da turma, podia?

- , o Srgio t certo, fica de bico calado, seno espirra
pra voc e no vai ser mole - eu disse.

- Sabe qual  o meu consolo? - disse o Roberval, um
brilho estranho nos olhos.

- Qual ? Um dia vai ficar rico? - provocou o Thiago. -
S se ganhar na loteria...

-  que vocs no vo dar em nada na vida - disse o
Roberval. - Vo virar lixo, com essa porcaria toda que vocs
usam. Eu j passei de ano, nem preciso de exame...

- Filho da me! - O Srgio se atracou com o Roberval e
os dois rolaram no cho. Foi um alala! Antes que o pessoal da
vigilncia percebesse, eu e os outros da turma do deixa-disso separamos
 os dois. E o Roberval ainda falou, meio engasgado:

- Vocs so uns interesseiros que sempre fingiram gostar
de mim, s pra eu ensinar vocs. Pensam que no sei? No sou
otrio, no. Mas a minha vingana  que no ensino mais ningum,
 e vocs todos vo se ferrar.

O pior  que era verdade. Naquela semana tinha prova de
matemtica... Sem o Roberval tava todo mundo ferrado mesmo.

Ento a gente comeou a bolar uma ttica de guerra, porque
a questo era brava: como amaciar o Roberval e fazer ele voltar

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pra turma? Depois, todo mundo morria de medo que ele ficasse
passado e abrisse a boca... A gente sabia que ele no era um exu
tranca-rua, mas na hora da raiva, n, quem podia garantir?
Fizemos uma comisso e cada um deu um palpite:

- Pena que o carinha no transa nada, seno a gente
engrupia ele com droga - disse o Srgio.

- J sei - disse o Thiago. - Ele morre de vontade de ter
uma bicicleta.

- E onde a gente vai arranjar uma? - perguntei. - A mesada
 vai toda pras drogas.

- Eu no falei em bicicleta nova, cara - replicou o
Thiago. - A gente descola uma de segunda mo e adoa o garoto.
 Quem tem mais de uma bicicleta em casa?

- Deixa comigo - disse o Srgio. - Eu descolo uma.
Vamos ver se esse besta afina ou no afina...

A bicicleta era toda prateada e tinha dez marchas. A gente
deu uma boa polida nela, ficou legal paca, uma jia. E eu fiquei
curioso: ser, como dizia o Srgio, que cada um tinha o seu preo?
 At o Roberval?

37


A gente aproveitou que no teve uma aula e fomos falar
com o Roberval. E o Srgio, muito mo-nica, disse:

- Olha, Roberval, a gente quer fazer um trato. Voc mastiga
 como antes a prova e, em troca, ganha uma bicicleta novinha
 de dez marchas. Voc topa?

Ele falou assim como se estivesse tudo resolvido. Como se
no houvesse a menor dvida de que o careta do Roberval ia
aceitar mesmo a bicicleta. Como havia guarda que aceitava
propina no trnsito pra no multar, quando a gente dirigia sem
carta, esses baratos.

- Ah, voc quer me dar uma bicicleta? - perguntou o
Roberval.

- T l na minha casa - disse o Srgio. -  s voc voltar
 a ensinar a gente, que ela  tua. T te esperando. Toda prateada,
  uma jia, meu irmo.

- Eu no sou teu irmo - disse o Roberval, ficando at
vermelho de to passado. - E to me lixando pra tua bicicleta...

- Como ? - perguntou o Srgio, sem entender nada. Eu
s olhava os dois, tava louco pra descobrir como ia acabar tudo
aquilo.

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-  isso que voc ouviu, cara - disse o Roberval, muito
srio. - Primeiro, que eu no sou teu irmo, Deus me livre de
uma desgraa dessas. Segundo, que eu no quero porcaria de
bicicleta nenhuma.

- Como, no quer? To te oferecendo uma bicicleta novinha
 em folha e voc diz que no quer?

- Voc ouviu muito bem, mas you repetir. - Baixou a
Carrie de vez no Roberval. - Eu no quero a porcaria da sua
bicicleta e no you mais ajudar nenhum de vocs. Vocs so um
bando de safados, que s servem pra fazer sacanagem. Eu quero
mais  que vocs se ferrem todos... - O Roberval virou as costas
 e saiu andando, pisando duro.

A gente ficou tudo com cara de besta. O Srgio nem queria
acreditar no que tinha ouvido. S falava:

- P, que otrio, recusar uma bicicleta... Esse  cretino
mesmo...

- Ser? - disse o Leandro. - Ser que ele  otrio? Ou
os otrios somos ns, que vamos rodar na prova?

- Minha nossa! - disse o Thiago. - A gente vai mesmo
se danar. Sem o Roberval estamos ferrados.

- Pois  muito bom a gente comear a passar sem o carinha
- eu disse -, porque ele  de palavra e no volta atrs.

O Roberval no voltou atrs mesmo e a gente rodou feio
em matemtica. Acho que foi a que eu comecei a degringolar l
no colgio. Com a ajuda do Roberval ainda dava pra maneirar,
apesar de no estudar muito... Ele era do bem, trazia a matria
toda mastigada, fazia resumo, at apelidaram ele de Professor,
ele levava muito jeito.

Agora... o que a gente ia fazer? A turma tava cada vez mais
naquela de inalante e tambm de xarope. Tinha comeado com
meio frasco por dia, misturando com refrigerante, cerveja ou
caf. Depois foi aumentando a dose. A gente tava nessa nem fazia
 muito, mas parecia que no tinha feito outra coisa na vida...

Mas o preo era muito alto por aquela alegria postia: a boca
ficava seca, a gente suava pra caramba, e tinha at convulso s
vezes, como ataque epilptico. Mas como viver sem aquela eu39




foria que a droga passava, se bem que s vezes tambm vinham
as alucinaes...

Na primeira convulso que eu tive quase morri de medo,
bati a boca no canto da poltrona e quebrei um dente. Tive que
inventar l em casa que tinha levado um tombo na rua, e ainda
fiquei um tempo na cadeira do dentista, droga!

O xarope era fcil... A gente comprava em qualquer farmcia.
 Quando no encontrava era s falar com o Srgio, ele era o
presena da turma e, como consumia bastante, tinha tambm os
seus contatos pra conseguir a droga.

A gente tava se acabando com aquilo... No comia direito,
tava emagrecendo pra burro, a convulso era um perigo porque
podia enrolar a lngua. Da, babau nicolau.

Cada um ficou dependente  sua maneira, acho que conforme
 o problema. Ento tinha cara que tomava um frasco, outro
dois, e por a... Mas o Srgio tinha comeado antes da gente, por
causa daquela turma do clube. E, ento, ele j tomava vrios frascos
 por dia.

O Srgio era um garoto rico, tinha coisa  beca. Quando a
grana ficava curta, ele vendia um walkie-talkie, um vdeo game,
um tnis importado, esses bagulhos. E como tinha muito, os coroas
 nem percebiam...

A minha grana tambm tava ficando curta. A grana era para
o lanche na cantina, mas entre comprar o lanche e a droga, eu
comprava a droga, e preferia passar fome, quer dizer, nem tinha
muita fome, no, as drogas tiram o apetite.

Os inalantes e os xaropes at que eram baratos, ento voc
deve ter pensado: como  que a grana no dava?  que a gente
consumia em grande quantidade, e se no conseguia ainda pagava
 gio pra quem revendia. Por isso a gente vivia liso.

E, sem a ajuda do Roberval, aconteceu o esperado: a turma
inteira repetiu de ano. Foi a maior bomba l em casa. Os coroas
ficaram passados, rodaram a baiana. Eu nunca tinha visto a Renata
 e o Rogrio daquele jeito. Me puseram de castigo, me tiraram
 as frias na Disney World, foi um alala! Ainda mais que o
pai tinha sido um timo aluno no tempo dele de colgio, ento
ele s falava: "Voc t envergonhando o meu nome!"

40


Da ele quis saber por que eu vivia cansado, no comia direito
 e dormia mal. A a Renata disse que ia me levar no mdico,
fiquei gelado. Inventei mil desculpas pra convencer os coroas:
que no tava doente, que era s uma fase ruim... At que os
coroas engoliram a treta e me deram sossego.

Nas frias, que passei em So Paulo, a turma no se encontrou
 muito. A maioria viajou e eu fiquei sozinho. O jeito foi
cheirar um pouco o que eu ainda tinha de cola e um resto de
lana-perfume, ainda mais que o coroa tinha cortado a mesada.

Sem o Srgio ficava tudo mais difcil, ele era muito monica,
 entrava em loja de ferragem, onde fosse, pra comprar droga.
 No desespero, arrisquei ir na farmcia e, com uma ltima
perna, descolei uns xaropes. Passei to mal que me deu at medo.
Mas como eu ia agentar tanta solido, e ainda por cima longe
da turma? O pior  que os coroas tambm viajaram, nem a tia
Zilah pde ficar comigo, fiquei s com as empregadas, e me
droguei enquanto tive grana pra isso.

Finalmente o Srgio voltou das frias e o resto da turma
tambm. E da todo mundo voltou pr colgio... como repetente,
 um saco! A turma tava marcada, todo mundo sabia que a gente
 era barra-pesada.

Repetir de ano  como comer po amanhecido, sacou? Uma
porcaria. Os professores olham enviesado, cobram mais na aula,
a gente leva uma egpcia dos colegas... E o Roberval todo folgado,
 l no segundo colegial, queria ser mdico, imagine a pretenso
 do bicho... A gente se via no recreio, me dava o maior dio!

No bastasse isso, um dia o Srgio veio todo aflito, de olho
arregalado:

- Sabe aquele carinha, o Rodrigo?

- Que Rodrigo?

- Aquele da outra turma, que voc conheceu na minha
casa, o do xarope...

- Ah, sei, aquele que ensinou pra gente...

- Morreu.

- Qu? - At dei um pulo da carteira. - Tem certeza,
foi ele mesmo? Morreu de qu?

41


- De tanto xarope - disse o Srgio. - Imagine, o cara
transava dez frascos de xarope por dia!

- Poxa, meu,  dose, hein? E ele tinha grana pra tudo isso?

- A  que t - falou o Srgio, baixando a voz. - Ele
nem tinha tanta grana, no. Fez o diabo: falsificou cheque da
me, bateu na famlia, roubou tudo o que tinha valor na casa...

- Mas p, xarope at que  barato, custa to pouco o
frasco...

- Barato , mas ele consumia dez por dia, cara, faz as contas.
 Multiplica isso por trinta dias do ms... Ele nem tinha bagulho
 como eu pra vender, precisou roubar pra ter a grana.

- Roubava o qu? - Eu tava assombrado com aquilo.

- Algumas jias da me, da v, roupas dos irmos, vendia
tudo pra trocar por xarope... Quem me contou foi a irm dele,
cruzei com ela ontem no shopping. Foi um horror! Ele era forto,
lembra? Pois ela disse que ele virou um trapo, teve tanta convulso
 que perdeu os dentes nos tombos, atacou o intestino, a
bexiga, ele ficou vrios dias sem urinar, at que morreu do corao,
 pode?

O Srgio tava mesmo assustado, e eu fiquei mais ainda. A
gente resolveu que ia dar um stop nos xaropes, aquilo era barra.
Mas falar  uma coisa, fazer  outra. A gente conseguiu diminuir,
mas parar com tudo no dava.

E aconteceu ainda mais coisa: como tava morrendo muito
garoto e garota por causa dos xaropes, o governo proibiu a venda
de quatro marcas, aquelas que a gente mais consumia. E saiu
tudo no jornal: que esses xaropes tavam proibidos h muito
tempo l nos States, s apareciam na Europa, em alguns pases.

- Melou - disse o Thiago. - O que a gente faz?

- Eu descolo algum, tem gente com estoque - garantiu o
Srgio.

O pior  que vendiam muito mais caro... A gente se virou
pra comprar. Foi um tal de pedir dinheiro em casa que a coroa
at desconfiou:

- J gastou toda a mesada, Igor? - Eles tinham voltado a
me dar mesada, ainda bem.

42


-  pra material escolar.

Quando o dinheiro acabou eu tambm vendi umas coisas:
porcarias, n, tudo uc, pra no dar na vista. Mas o estoque dos
caras l tambm acabou. Ento o Srgio falou:

- S tem uma sada, mudar de marca.  frmula diferente,
mas deve dar alguma sensao. Ou ento partir pra outra.

- Que outra? - eu quis saber.

- Eu to achando que essa histria de xarope  pra pivete.
- continuou o Srgio. - Que tal a gente partir pra droga de
macho, mesmo?

- Qual? - perguntou o Thiago.

- Deixa que eu trato disso - disse o Srgio.

43


Esse ano foi terrvel mesmo. Os coroas tavam na minha
cola, exigindo estudo. O Roberval nem a, ainda mais que estava
no segundo colegial. Cortou a ligao de uma vez, como se corta
um cordo umbilical: o pessoal ficou rfo do Roberval.

Eu vivia num conflito terrvel. De um lado tinha o Roberval,
que era um garoto pobre, filho do porteiro, bolsista no colgio.
E, no entanto, s dava alegria prs coroas dele, passava de ano,
tava no caminho de realizar o sonho dele de ser mdico. No
transava droga, e era o querido dos professores. Do outro lado
tinha a minha vida, que se confundia com a vida da turma: eu, o
Thiago, o Leandro e o Srgio.

Se somasse todas as parcelas, em qualquer ordem que fosse,
dava sempre o mesmo nmero. Porque a gente era tudo igual:
transava droga, vivia com sono, cansado, olhos congestionados,
que precisava usar at culos escuros e colrio, nariz escorrendo,
jeito de bbado, s vezes at agressivo, mau aluno, repetindo de
ano, malvisto no colgio... e, no entanto, a gente tinha famlia,
posio, tudo o que o dinheiro podia comprar. Tinha alguma coisa
errada no pedao - s que eu no conseguia descobrir o que era.

44


Claro que a gente tinha os costumes l da turma, n, coisa
leve. Ningum tinha carta de motorista, no tinha ainda dezoito
anos, eu fiz agora. Isso no impedia que a gente dirigisse. Passava
 a mo no carro da coroa e se mandava... Quantas vezes um
guarda parou a gente na rua: stopl Se dava pra gente comprar ele,
a gente comprava (como dizia o Srgio, quase todo mundo se
vende, n?), seno levava multa, esse qiproqus... Mas geralmente
 se dava um jeitinho.

Outra coisa que a gente adorava era fazer pichao de madrugada.
 Saamos num carango rpido, cada um com uma lata
de spray. Antigamente o alvo eram os muros. Agora o top era
pichar placas de trnsito e at o alto dos edifcios, uma aventura...
 A gente driblava o porteiro e subia pelas escadas ou pelo
elevador. Ou, melhor ainda, entrvamos junto com algum carro
na garagem... Era s esperar o morador chegar. Teve vez que
um segurava pelos ps e o outro pichava de ponta-cabea, l no
alto, um teso!

A turma tambm curtia quebrar orelho. A gente arrancava
e deixava pelo cho... Os bestas de manh no iam nem poder
ligar pr trabalho pra dizer que perderam a hora, ou que os nibus
 estavam em greve, "essas coisas de pobre" - como dizia o
Leandro, que se divertia  beca com isso. Eu, pra falar a verdade,
achava essa de quebrar orelho meio sem sentido, mas se a turma
 era da pesada, eu no podia enrustir, n? Eu dependia muito
da opinio da turma, sem ela eu no era ningum. Era um zero 
esquerda, sacou?

Em casa, os coroas continuavam na minha cola. O pai chegava
 do trabalho j cobrando: "Como vai o colgio? T estudando
 direito?" At a me, que vivia passeando por a, se interessava.
 Acho que eles tinham vergonha de dizer que o filho deles
tinha repetido de ano.

Eles se esforavam, pagavam aulas particulares pras matrias
 mais difceis, no poupavam esforos pra me ajudar... Eu
driblava tudo. Se era na casa do professor eu dizia que ia mas
no ia. Se era na minha casa, eu mandava recado que tava doente.
 Os coroas descobriram, foi aquele angu. Eles no entendiam
mais nada. Era como se tivessem de repente trocado de filho...

45


Um dia o pai at perguntou:

- Por onde anda aquele seu colega que vinha estudar com
voc? Parecia to inteligente...

- Ah, o Roberval? - At engoli em seco. - Passou de
ano e saiu da turma.

- Vocs saram perdendo - como se a gente no soubesse!
 -, ele era muito aplicado mesmo. Tem futuro aquele garoto!
 filho de algum que eu conheo?

-  - eu disse. - Filho do porteiro l do colgio.
No sei por qu, o Rogrio ficou passado:

- Olha as amizades do teu filho - disse pra Renata.
- No tem cabimento: o filho do porteiro!

- U, pai! - At chamei ele de pai. - Que  que tem?
Voc mesmo tava elogiando o Roberval, que ele sempre foi bom
aluno, tem futuro...

- Precisa cuidado com as companhias, Igor - disse o Rogrio.
 - Esses pivetes transam muita droga. Ainda bem que ele
saiu da turma.

Coitado do Rogrio, me deu at vontade de rir! Que raciocnio
 mais torto o dele... Tava mais por fora do que caixa de
correio...

O pior  que eu tinha de mostrar servio prs coroas... Conseguir
 passar de ano. Se repetisse de novo o primeiro colegial, a
casa ia cair... na minha cabea!

Mas no dava! A gente tava em outra... Foi o Srgio quem
apareceu com a novidade, l na casa dele, todo importante:

- Isso aqui  coisa de macho, lembra que eu prometi? Vamos
 puxar um bagulhinho antes de estudar, turma!

S que depois que a gente fumou o baseado, quem  que
tinha cabea pra estudar? Primeiro bateu uma tagarelice maluca,
todo mundo falando ao mesmo tempo, rindo, excitado... Depois
veio uma depresso... uma sonolncia... Ficou todo mundo largado,
 como jacar no sol...

Pra variar, os olhos da gente ficavam congestionados, e toca
pr culos escuros. Dava uma vontade louca de comer doce...
sem falar nas alucinaes. Deixa ver se eu consigo te explicar. A
gente perdia a noo do tempo e do espao... uma loucura!

46


O pior  que ficava aquele cheiro de erva queimada pela
casa, pelas nossas roupas, e a gente escondia de qualquer jeito os
restos dos cigarros feitos  mo, que deixavam os dedos manchados...


Tinha entrado uma garota na nossa turma: a Karina. Era
linda de morrer, uma morena de olhos verdes que nem te conto.
Ela era como o Roberval, inteligente paca, uma gnia, pegava a
matria no ar, nem precisava estudar. Diziam que era
superdotada. Ento o Leandro, muito vivo, convidou a Karina
pra estudar com a gente, e nesse dia ainda trouxe uma amiga, a
Luciana.

A Karina no transava droga, era c-d-efe como o
Roberval. A Luciana topou. A Karina ficou passada porque tinha
ido estudar e a gente ali tudo largado, de olho vermelho, sem a
menor condio.

E olha que a gente insistiu pra ela entrar no barato:

- Vamos nessa, gatinha!

A uma certa altura, ela se levantou e foi embora: nem disse
adeus. Largou a Luciana l puxando o bagulho.

A gente gostou tanto que pediu pr Srgio arrumar mais.
Ele era o presena da turma. Ento ficava superfcil pra gente,
n? Era s questo de grana... E a a coisa tava comeando a
virar piro...

No sei se os coroas tavam comeando a desconfiar de alguma
 coisa, de tanta pedio de grana, dos olhos congestionados,
dos vidros de colrio, da falta de sono, de apetite, do comportamento
 estranho, ora indiferente, ora agressivo... s vezes a Renata
 me olhava... me olhava, como se quisesse me dizer alguma
coisa. E o Rogrio tambm parecia que me observava. Eu sempre
naquela tenso de no dar bandeira. Mas no podia evitar o
cheiro da erva queimada nas roupas, procurava esconder os dedos
 manchados...

Ento eles comearam a congelar a mesada, sacom. Eu
precisava de mais grana. E o Srgio falava:

- Isso ainda  caca, meu irmo, deixa a gente transar droga
 ainda mais pesada... Da voc vai ver o que  despesa.

47


- E quando essa tal aparece? - perguntava o Leandro,
todo entusiasmado.

- Logo, logo - garantia o Srgio. - O presena aqui 
de primeira, t descolando um contato de terceiro grau...

Imagine se o colgio descobrisse que o Srgio era a mula
que trazia a droga l pra dentro, pelo menos pra nossa classe...
Devia ter outros, claro, espalhados por ali. Tinha muita gente
que transava droga no colgio, uns mais, outros menos, alguns
s em festinhas, de vez em quando, outros j eram mesmo dependentes.
 .. Por isso compensava ser mula. S que tudo na moita,
 bico calado, a gente at puxava uns baseados no banheiro. O
duro era disfarar aquele cheiro meio doce, parecia at que a turma
 tinha queimado incenso ou coisa parecida...

Eu tava amarrado na Karina, uma coisa meio louca, rolei
uma cantada pra cimadela, ela no topou. Disse que eu era legal,
um gatinho, mas que ela no queria nada com quem transava
droga, que sentia muito. Que os coroas dela eram super-maisvelhos,
 que conversavam muito com ela, e ela tinha assim um
compromisso com eles de no entrar nessa de droga... Que at
tinha feito pesquisa cientfica, lido uns livros sobre o assunto,
que droga no tava com nada...

Foi a maior desiluso da minha vida... perder aquela gatinha
 to linda! E ainda perguntei:

-  s por causa das drogas, Karina?

-  s por isso, sim - disse ela. - Se fosse diferente, a
gente podia at se entender. Eu acho voc legal, sempre achei, j
disse, voc  um gatinho!

Eu no me conformava: perder uma mina linda daquelas
por causa de uns bagulhos, que droga! Contei pr Srgio, nem
devia ter contado, era uma coisa ntima minha, ele gozou:

- Esquece a gata, t cheio de mina melhor que ela por a.
A Luciana mesmo  vidradona em voc, ela me contou.

- No faz meu tipo.

- E qual  o seu tipo?

- A Karina.

- Corta essa! - disse o Srgio. - A Karina  uma caretona.
No t com nada. Canta a Luciana, cara, ela t na tua mira...

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Eu no queria a Luciana, eu queria a Karina. A Luciana
tinha um jeito meio maluco, bagulho sempre na mo, rindo como
tonta. Queria a Karina, os cabelos cor de castanha, olhos verdes
de gata, tnis branco e cor-de-rosa, as mos to delicadas segurando
 a caneta. Os cadernos encapados, aquele sorriso de estrela
de cinema. Tava amarrado na Karina, ou era ela ou no era ningum.
 Tava com ela e no abria.

De longe, no intervalo, nas aulas, eu grudava os olhos nela:
no seu perfil de esttua grega, na orelha com dois brinquinhos
em forma de lua e estrela. Eu faria qualquer coisa pra ganhar a
Karina... Qualquer coisa?

S que no tinha coragem, era um besta, um covarde, um
mo-nica, queria bancar o macho e tava derretendo de amor e
tristeza... como um picol jogado na calada, sem dono, que no
serve pra nada.

O pior  que a Luciana dava em cima de mim adoidado.
Vinha com tudo, parecia um tanque de guerra. Trazia at baseado
 de presente, um saco!

Se oferecia como tonta e depois ficava deprimida quando
eu no dava bola. Ela sabia que eu curtia a Karina, tava cansada
de saber. Por que ento insistia, se no tinha a menor chance?

O pior  que o Roberval tambm curtia a Karina. Descobri
por acaso. Eu tava fazendo uma pesquisa na biblioteca pra prova
de histria, um dia assim que eu tava mais legal, que a dona
Slvia no brincava mais em servio... quando a Karina chegou.

O Roberval tava l no outro canto... tambm fazendo pesquisa.
 Foi s a Karina entrar que ele se iluminou como rvore de
Natal. E veio todo in pr lado dela, oferecendo ajuda pra encontrar
 os livros que ela tava procurando... Ele era o maior rato de
biblioteca, acho que de todas as bibliotecas da cidade, porque
no tinha grana pra comprar certos livros.

Precisei me segurar, porque me baixou a Carrie. Que diabo!
 O filho do porteiro, passando de ano e ainda cantando a minha
 garota... quer dizer, ela ainda no era a minha garota, mas ia
ser, s questo de tempo, p, eu tinha escolhido a Karina como a
garota da minha vida!

49


Que dio me deu do Roberval... mas que dio! Ele tava
sempre no meu caminho, aquele trubufu de aqurio, ser que
adiantava dar uma surra nele ou pagar pra algum bater nele? Se
eu falasse com o Leandro ou o Thiago, ou o Srgio... a gente
aoitava ele e descia a porrada... pra ele deixar de ser besta.

Depois veio a vergonha de pensar em coisa assim to baixa.
 .. Eu nunca ia ter coragem de armar essa treta - ou teria? Eu
no me conhecia mais, era um estranho pra mim mesmo, eu tava
descendo num poo muito fundo, talvez um pouco mais no fizesse
 diferena...

50


 fcil a gente descer no fundo do poo... O difcil  sair
dele. A minha vida tava ficando to sem sentido! Nada parecia
dar certo. A escola era um pesadelo, passar de ano era outro pesadelo.
 E pra conseguir grana pra droga, ento? Eu vivia agitado,
angustiado, deprimido... e tinha a Karina, que s ficou minha
amiga e ainda assim meio de longe, ressabiada. Eu devia parecer
um bicho-do-mato pra ela.

Tambm, pudera! Eu nem ligava mais pra minha aparncia,
tinha desleixado at em questes de higiene... Ficava s vezes
sem tomar banho ou trocar de roupa, no ligava pra nada. Meu
hlito (eu sabia por sentir o dos outros da turma) devia cheirar a
erva queimada. Como a boca vivia seca, por dentro e por fora,
at a garganta, os lbios tambm rachavam como se fosse poca
de frio. E como a gente fumava os bagulhos at o fim, pra aproveitar
 bem, o indicador e o polegar estavam sempre manchados
por causa das queimaduras.

Eu vivia gripado, saa de um resfriado e pegava outro, acho
que a minha resistncia tava baixa, eu no comia direito, e tinha
uma tosse constante. Desse jeito, com essa beleza de figura,
como eu podia esperar que a Karina se interessasse por mim?

51


Na escola, claro, o Roberval foi ganhando terreno... Todo
certinho, bem-arrumado mesmo nas roupas uc dele, ele parecia
sempre ter acabado de sair do banho. Eu tinha de reconhecer, ele
era do bem. Ningum podia pr defeito: nem professor, nem os
coroas, droga, droga! E se juntou com a Karina numa dupla de
geniozinhos - um curtindo a inteligncia do outro. Podia ter
barato pior? Pra mim, naturalmente, porque eles tavam nas alturas!

E quando eu ficava pra baixo, tenso, precisava de mais droga.
 E pedia pr Srgio:

- V se me descola uns bagulhos que eu to na pior...

- Tem grana, cara?

- Deixa que eu arrumo.

A coroa tava ficando desconfiada. Era tanta grana extra que
eu pedia! Vivia de culos escuros por cima das lentes de contato
pra no dar bandeira, s vezes nem conseguia usar as lentes de
to congestionados que ficavam os meus olhos...

Flagrava os coroas cochichando... Quando eu chegava perto,
 mudavam de assunto. Ser que desconfiavam de alguma coisa?
 E o pai falava:

- Voc anda to desleixado ultimamente, Igor, parece que
nem toma banho. Com tanta roupa de griffe, t com cara de peo
de obra. V se toma jeito, rapaz, corta esse cabelo, fica com aparncia
 de gente!

Depois de puxar o bagulho o difcil era dirigir. A gente perdia
 a coordenao motora, no tinha mais reflexo rpido, um
saco! Um dia eu massacrei o carro da coroa, escapei por um fio...
Tava no seguro, ficou um ms na oficina. O Rogrio ficou passado,
 foi um au l em casa. A Renata, ento, s dizia:

- O que t acontecendo com voc, Igor? Voc mudou tanto
 que s vezes eu at penso que tenho um estranho aqui em casa.
Esses seus olhos vivem vermelhos... Deve ser algum problema
com as lentes, you marcar um oftalmologista.

Dessa vez no teve jeito: ca de cama com "gripe". Alis,
eu vivia gripado. Fiz o maior alala, e a Renata desmarcou o
oculista. S que ela punha o termmetro e estranhava:

- Voc com todo esse mal-estar, calafrios, e nem tem febre.
 Que coisa esquisita!

52


Tava ficando ruo, era mentira de todo lado. Eu me sentia
perdido num deserto. Dava bandeira, deixava sinal pra que me
encontrassem... e nada! Cada vez me sentia mais abandonado e
sozinho, como se no tivesse famlia, nem ningum. Um desespero,
 uma angstia... No via mais graa em nada, no tinha
objetivo de vida, sacou?

Nem um sonho pra me agarrar, assim como uma bia, um
salva-vidas. Eu queria, mas eu queria tanto ter um sonho grande,
bonito, que fosse assim como uma luz no fundo do poo... uma
luz que me guiasse, que me animasse a ter uma vida bacana, igual
 do Roberval, da Karina e de tantos colegas l do colgio, to
tranqilos, na deles, na maior...

E me perguntava por que comigo tinha de ser to diferente,
por que tinha de viver assim to desesperado, sem tomar p,
como se estivesse sempre me afogando.

Sozinho eu no conseguia achar a soluo - o fora da
Karina tinha sido a ltima gota, da afundei pra valer. Quanto
mais sentia pena de mim mesmo, mais transava droga... e quanto
 mais transava, mais ficava na pior, porque era s passar o efeito
 - que o corpo vai acostumando e pega tolerncia -, e eu
caa na real, e a realidade era demais pra mim, no suportava
viver nela.

Ento tinha de tomar mais droga, pra voltar pra aquele mundo
 dourado, de euforia e luz, que eu sabia que era postio, que
era miragem l no meu deserto, mas que me ajudava a suportar o
uc que era a minha vida!

O pior  que eu tinha conscincia disso tudo, essa conscincia
 latejava dentro de mim como um abscesso... que eu devia ter
encarado, furado, pra sair todo o pus... Mas eu deixava l latejando,
 queimando, cobrando, me matando aos poucos...

E fazia de conta que era feliz, na companhia do Srgio, do
Leandro e do Thiago, e agora tambm da Luciana, a turma mais
da pesada do colgio, de quem todos fugiam, principalmente a
Karina. Fazer parte daquela turma parece que agradava uma parte
 de mim meio escura, escondida, que eu no conhecia bem e da
qual tinha at medo... Isso era mais forte que tudo, que a minha
vontade de sair dessa, sei l, de crescer...

53


Da erva para o p foi um passo, lembro muito bem: o Srgio
 deu uma festa na casa dele, num fim de semana, quando os
coroas dele estavam viajando, como sempre faziam.

Convidou assim o pessoal mais chegado, alm da turma. E
a Luciana trouxe a turma dela tambm, uma trempa de metaleiros
de moto, roupa de couro, um sarro.

No meio do au, o Srgio veio todo importante, com uma
bandeja na mo. Na bandeja tinha uns papelotes com um p
branco e cristalino.

- Chegou a hora da velinha - disse o Srgio. - S que
em vez de apagar a gente vai cheirar...

Ento, o Leandro fez umas carreirinhas em cima da mesa,
que era de espelho, batendo bem com a gilete, pra separar o p.
E convidou um por um (a maioria ali transava droga) pra cheirar
uma carreirinha com canudinho. Teve cara que cheirou com canudinho
 feito de nota bem nova de dlar, estalando, esses baratos,
 s pra dar status.

O Leandro me avisou:

- Vai devagar, que  a primeira, a gente nunca sabe a
reao do corpo, n?

- Voc j cheirou antes? - perguntei, admirado.

- O nenm aqui  voc - riu o Thiago. - Voc  a debutante:
 vai nessa, meu!

Fiquei passado, eles eram to meus amigos, e faziam coisas
sem mim. Eles iam ver. Fui com tudo. Embarquei na nave espacial
 e fiz a viagem...

A cocana  uma armadilha, percebi quando j era tarde.
Ela d uma iluso danada de que voc pode fazer tudo, na melhor.
 Acho que  por isso que tanta gente, artista, executivo, profissional
 liberal, jornalista, cai nessa armadilha.

Quando eu cheirava o p, a vida ficava fcil, me sentia capaz
 de tudo: de estudar, de compreender at matemtica, de passar
 de ano... Eu virava um heri, um guerreiro, um cara com
superpoderes. O mundo tava ali, do mesmo jeito, cheio de misrias
 e dores, mas eu era um vencedor. Porm, a sensao durava
pouco, e de repente eu caa na real, e me sentia de novo um verme!

54


Ento, pra garantir aquela sensao de plenitude, de conquista
 do mundo, eu cheirava mais... Tinha cara que esfregava o
p nas gengivas... Aquilo era uma muleta, como se a gente tivesse
 uma perna s e precisasse de ajuda pra poder andar, correr,
competir!

O grama do p custava cada vez mais barato, mas pra gente
ainda era caro. E, se diminua de preo, a pintava o maior medo,
porque os caras misturavam uma poro de uc pr p render:
lydocana, p de vidro, talco, sei l quantas porcarias mais... Da
o Srgio garantia que era da pura... Assim podia cobrar caro
pela nossa iluso de felicidade. Mas mesmo assim dava medo: se
era da pura era superforte, no se podia errar na dose...

Ento... eu entendi o Rodrigo, aquele garoto que tinha
morrido de tanto xarope. Porque quando a grana acaba e o desespero
 para conseguir a droga  maior que tudo, a gente  capaz de
fazer as coisas mais terrveis.

Quando a Renata e o Rogrio me negaram mais grana eu
apelei, parti pra ignorncia, baixou a Carrie em mim: fiz o diabo l
em casa, ameacei quebrar tudo! Nunca you esquecer o olhar de
espanto dos coroas, como se tivessem um marginal diante deles:

- Que  isso, Igor, voc ficou louco?

- Ser que voc est doente? Com esse olhar to estranho...
Queria grana, s isso, mais grana e grana... Com o p eu

no sentia fome, nem sede, nem cansao. Com o p eu ficava
calmo, era um rei! Pra conseguir o p eu faria qualquer coisa!

A... desci fundo no poo, at me envergonho de te contar...
 Ia nas lojas, de bluso bem folgado, e roubava lingerie,
perfumes finos, discos CD pra trocar pela droga... Roubava tambm
 dos coroas, das visitas que apareciam em casa. Onde e quando
 pintasse a oportunidade, eu passava a mo. Ficou uma coisa
chocante!

Quem pagou o pato foram as empregadas, como sempre.
Os coroas nunca que iam pensar que era o garoto deles quem
tava afanando a grana. Ento saa cada confuso, os coroas acusando
 as empregadas, elas negando. A gente perdeu empregadas
de anos, por sorte eles no puseram polcia no meio, ficou s na
dvida, mas elas foram se despedindo e indo embora...

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O pior foi quando no tinha mais grana pra pegar. Eles comearam
 a tomar mais cuidado, trancar armrios, pr tudo no
cofre. Ento eu fiquei desesperado.

Da lembrei que a tia Zilah tinha muitas jias. Comecei a ir
na casa dela, ela tambm tinha uma empregada de mais de vinte
anos, da maior confiana. Deixava tudo em cima da mesa, bolsa
aberta, na maior tranqilidade.

Um dia, quando eu cheguei, ela estava saindo pra fazer
compras no supermercado, eu disse que ia puxar um ronco. Ela
nem desconfiou. Ficamos s eu e a empregada, que tava passando
 roupa na lavanderia.

A tia Zilah nem tinha cofre como os coroas. Guardava tudo
numa caixa dentro da gaveta da penteadeira. Foi moleza. Peguei
todas as jias e esperei ela voltar, na maior cara-de-pau.

As jias eu vendi pra um cara que o Srgio me indicou, um
receptador que sabia que tudo era roubado... Me pagou uma
mixaria, muito menos do que valiam, deu pra um tempo do p,
que o Srgio cobrava cada vez mais caro, dizendo que era puro,
uma beleza!

Depois, ouvi os coroas comentando que tia Zilah tinha
perdido todas as jias, que algum tinha roubado a casa. Um
verdadeiro mistrio, porque ela jamais acusaria a empregada.
Afinal, a Maria tava com ela h mais de vinte anos... Devia ser
algum que entrou pra consertar alguma coisa e elas no perceberam.


Ainda bem que a tia Zilah no tinha desconfiado da coitada
da Maria. Ser que desconfiava de mim? Eu no tive mais coragem
 de aparecer por l, mas um dia ela veio at em casa e comentou
 o assunto na hora do jantar:

- Voc chamou a polcia? - perguntou o Rogrio. - Afinal,
 perder todas as suas jias desse jeito.

- Foi mesmo uma pena - disse a tia Zilah. - Eram jias
de famlia, herdei de minha me. Mas, se eu chamasse a polcia,
eles pegariam a Maria como bode expiatrio, no podia correr
esse risco.

- Mas voc tem certeza de que no foi ela? - arriscou a
Renata.

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- Mas  claro que tenho! - disse a tia Zilah. Aquelas

jias estavam ali h anos, ela nunca mexeu em nada. Por que
mexeria agora? Ela  mais leal do que se fosse algum da famlia,
 disso eu tenho certeza.

A tia Zilah olhou pra mim de um jeito engraado, fiquei
gelado. A tive a sensao mais esquisita do mundo: ela sabia
que era eu mas no falou nada. Para me proteger. Talvez nem
soubesse, sei l. Meu Deus, eu tinha me tornado um marginal,
roubado de uma pessoa de que eu gostava, que ficava comigo
quando meus pais viajavam...

Eu devia estar horrorizado, mas no estava. O que importava
 mesmo era conseguir a droga. Por ela, por aqueles minutos
de euforia, pela iluso de ser um rei, eu faria qualquer coisa: at
roubar!

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Tudo isso me deixava deprimido, na maior fossa. Eu agora
vivia muito mal. Os coroas tavam de marcao: a Renata marcava
 mdico, eu sumia, ela no sabia mais o que fazer. No que
eles desconfiassem do que tava acontecendo, mas havia sempre
aquela tenso no ar, das perguntas sem respostas: "Por que agia
daquela forma? Por que tinha mudado tanto?" Do filho carinhoso
 que eu era, tinha virado um furaco, sempre de mau humor,
destrutivo e at violento. Foi demais pra eles.

O pior aconteceu no final do ano: repeti de novo o primeiro
colegial. Eu e a turma toda, claro, a gente s fazia transar droga,
quando desse, dependia s de conseguir grana. E pra conseguir a
grana a gente fazia qualquer coisa. Roubar tinha virado rotina.

Os coroas no quiseram acreditar quando eu trouxe a notcia
da bomba no colgio. Ficaram ali sentados, na minha frente, me
olhando com cara de bobos. At que o pai falou:

- Afinal, Igor, o que est acontecendo com voc? De repente
 parece que voc entrou em parafuso. So dois anos seguidos
 de repetncia, voc vive na diretoria, teve vrias suspenses,
o que significa isso?

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E a me completou, desolada:

- Nosso nico filho, de quem a gente esperava tanto, fazia
tantos planos para o futuro... O que mudou, Igor? Se abre com a
gente, pelo amor de Deus!

Me deu at vontade de me abrir mesmo, de pedir socorro
pra eles. De virar um menino pequeno, que eles pudessem pr
no colo e ninar... Puxa, seria to bom se eu pudesse me abrir,
gritar: "Me ajudem, me tirem disso, me dem uma razo de vida,
um sonho ao qual eu possa me agarrar..."

Mas eu s disse, muito cnico:

- Corta essa, vocs no to com nada, me deixem em paz.
A o pai ficou passado:

- Como, deixar em paz? Voc quer virar um marginal, repetindo
 ano aps ano, se atrasando nos estudos? Desse jeito voc
no vai entrar nunca na faculdade de administrao...

- E eu l quero essa droga de faculdade? - berrei. Tava
louco pra transar a droga e no tinha dinheiro. Tava mais liso
que bumbum de nen.

- No grite comigo! - berrou o pai tambm, baixando a
Carrie. - No you mais admitir esse seu comportamento aqui
em casa. Voc perdeu o respeito pelos seus pais? Que  isso? Se
voc no mudar esse seu modo de agir... eu...

- Faz o qu, nem, me diga? Vai me bater? S que eu tenho
o seu tamanho, e se voc encostar a mo em mim, eu revido na
hora... E pra finalizar, meu chapa, eu to no colegial de biolgicas,
 enganei voc direitinho, to me lixando pr teu papo.

O pai me olhou fundo e vi uma dor to grande dentro dos
olhos dele que at me deu um troo por dentro... E a me comeou
 a chorar. Tava tudo ruindo  minha volta, eu ameaava
agredir meu prprio pai, fazia minha me sofrer. Eles tinham
defeitos como todo mundo, talvez tivessem at falhado numa
poro de coisas... mas eles no mereciam isso, no mesmo!

Mas eu tinha outro Igor dentro de mim: esse cara queria
cheirar p, queria se embalar num sonho-mentira, enganao,
mas dourado - esse cara que morava dentro de mim queria cavalgar
 no arco-ris olhando o mundo l embaixo: feio, torto, triste,
 cheio de misria e desamor... mas, por miserveis minutos

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ou segundos, estava acima de tudo isso e era feliz, se sentia amado,
 dono do paraso, um super-homem de araque fingindo que
tinha poder.

Pra entrar nesse paraso precisava de grana, a entrada custava
caro. Me sentia excitado, fraco, sem foras, com dores de cabea...
 e ao mesmo tempo tinha um dio terrvel de quem me negasse
 a grana pra entrar no paraso. Eu era um cachorro correndo em
crculos pra alcanar o prprio rabo... mas sem conseguir.

- Quero grana! - eu disse.

- Voc s quer saber de dinheiro - respondeu o pai.
- Pra que voc quer tanto dinheiro? Voc tem tudo aqui em
casa, o que lhe falta?

- No desconversa, velho (eu nunca tinha chamado o coroa
 assim antes), to a fim de grana. Se no der por bem, eu arranco
 do mesmo jeito.

Eu estava meio louco e parti pra cima do velho, a me deu
um grito e se ps na frente dele. Eu ia agarrar a velha, quando ela
me olhou bem de frente, assim, com os olhos dentro dos meus
olhos:

- Vai bater na sua me tambm, Igor?

A me deu outro troo e sa correndo. O desespero pra ter a
droga era to grande que j no percebia a diferena entre o bem
e o mal, eles se misturavam num liqidificador dentro da minha
cabea. Que importavam pai, me, parente, amigo?... Importava
era a sensao de paraso, era dela que eu precisava pra cavalgar
naquele arco-ris de novo, porque seno ia me atirar debaixo do
primeiro carro que aparecesse na rua...

Cheguei na casa do Srgio e por sorte ele tava l. Viu o meu
jeito desesperado e nem precisou perguntar o que era. Me arrumou
 um grama do p, que eu cheirei vido, de qualquer jeito. E
ele me disse:

- Te arrumo mais se voc fizer um trato.

Dias depois a tia Zilah me chamou na casa dela... Fui,
ressabiado mas fui. Ela tava sozinha em casa, mandou a Maria
fazer umas compras.

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Me serviu ch com biscoitos que ela mesma fazia. Me deixou
 bem  vontade, perguntou dos velhos, assim como quem no
quer nada. E, de repente, entrou no assunto:

- Igor, meu filho, voc sabe o quanto gosto de voc. 
como se fosse o neto que eu no tive... Mas preciso ter uma
conversa muito sria com voc.

- Nossa, tia, a senhora t me assustando.

- Eu quero assustar mesmo - continuou ela. - you ser
muito objetiva, voc me conhece, no gosto de rodeios. Sei que
foi voc quem pegou as minhas jias. Foi pra vender, no foi?

Ainda quis negar, ela me interrompeu:

- Agora, voc vai me ouvir at o fim. Voc deve estar
metido em coisa da pesada, meu filho. E por isso deve estar precisando
 de dinheiro, no ? O que pode ser? Voc por acaso
est... usando drogas?

Fiquei mudo como peixe, s baixei a cabea, e ela continuou
 falando:

- Quebrei a cabea pensando, s pode ser isso. Voc tem
tudo, um bom colgio, casa, o que voc quis seus pais lhe deram.
Eles so muito liberais pr meu gosto, deixam voc fazer o que
quer. Dirige sem carta, jamais eu permitiria uma coisa dessas.

- Ih, tia, o papo t ficando ruo...

- Fique quieto e me oua. Eu no posso ver voc jogar sua
vida fora desse jeito. Foram as ms companhias que levaram
voc por esse caminho, tenho certeza.

- T na minha hora, tia, you ter que me mandar...

- Sente a! - A tia Zilah falou de um jeito que eu nunca
tinha ouvido antes. Ela, que parecia to frgil, to delicada, agora
 me espremia contra a parede:

- Saia dessa, Igor, saia enquanto  tempo. No jogue sua
vida fora. Voc tem a vida pela frente... Pode entrar numa boa
faculdade, se tornar um profissional competente. O que voc espera
 da vida, Igor? Voc j est roubando, aqui e na sua casa,
pensa que eu no sei? Aquele dinheiro que vem sumindo l at
das visitas, eles me contaram, e a culpa foi parar nas pobres das
empregadas. E se eu no fosse uma pessoa responsvel? Teria

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chamado a polcia, eles teriam levado a Maria, que estaria agora
presa, pagando por uma coisa que no fez.

- A senhora fala como se tivesse certeza. E se eu jurasse
que no peguei suas jias coisa nenhuma?

- Foi voc, Igor, eu sei que foi voc. Eu tinha olhado as
jias por acaso, antes de sair, precisava levar algumas ao conserto.
 Ningum esteve aqui, s voc. No disse nada para no
entreg-lo. Voc roubou de mim, e se roubar de outra pessoa?
Ela no ter contemplao, e voc vai acabar sendo preso. J
pensou? O que vai acontecer com voc, com a famlia toda? A
vergonha, a tristeza? Prometa que vai sair dessa, meu filho.

O que eu podia dizer? Que tinha feito um trato com o Srgio
 no dia que cheguei desesperado l na casa dele?

O Srgio tinha sido legal me dando um grama de coca. Com
a condio de virar presena pra outra turma l dentro do colgio.
 Depois, ia ganhar em espcie, negcio da China, nem me
preocuparia mais com grana pra comprar o p, tirava a minha
parte direto. Como eu podia dizer isso pra tia Zilah?

Mas ela continuou cobrando:

- Promete que vai pensar no assunto, Igor?

- Prometo - eu disse, s pra me livrar dela. Sa de l arrasado.
 Justo a tia Zilah, de quem eu gostava tanto, tava por dentro
 de tudo, conhecia o pesadelo que era a minha vida.

Mas no tinha outro jeito. No havia mais grana, nem nada
pra roubar. S se eu sasse assaltando por a... e disso eu tinha
medo. A nica soluo era servir de mula como o Srgio queria.

Foi assim que de certa forma eu virei traficante tambm.
Buscava os papelotes com um cara, numa lanchonete, tinha at
um cdigo: pedia uma certa bebida e o garom trazia. Na bandeja
 vinha tambm a cocana num saco plstico coberto com um
guardanapo. Louco de vontade de pegar a minha parte e com
medo de ser descoberto, de dar bandeira, eu vivia no medo, dentro
 do medo, morrendo de medo de tudo: de ficar sem o p, de
carregar o p, de ser expulso!

s vezes, parecia que dentro da minha pele tinha um monte
de insetos, eles tavam ali, verdadeiros, comendo a minha carne,

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roendo por dentro. Eu cocava, tirava a pele com as unhas, me
feria todo... pra descobrir depois que era tudo alucinao. Meus
braos ficavam cobertos de cascas de ferida, eu era o prprio
mostrurio do inferno!

Voc pensa que era isso que eu queria na vida? Virar mula
de traficante, levando droga pra dentro de colgio, viver apavorado,
 com medo que algum descobrisse? Claro que os colegas
dependentes no iam abrir o bico, o segredo era a alma do negcio
 - se eu, o Srgio ou outra mula qualquer fssemos descobertos,
 eles no teriam o p, e sem o p tinha gente que no vivia
mais...

Eu j nem me olhava no espelho, porque no gostava do
que via: um cara abatido, com olheiras, pupilas dilatadas, uma
palidez de cadver... Pudera, no dormia direito, tinha pesadelos,
 mania de perseguio, me sentia vigiado, aoitado, cada rosto
 era o de um inimigo, que me perseguia pra me destruir...

Eu ficava deprimido, mas tinha de fingir: em casa, no colgio,
 em qualquer lugar onde fosse, devia bancar o bom menino,
cumpridor dos seus deveres... Ningum podia desconfiar que eu
era dependente de drogas, que tinha virado mula, que trazia escondidos
 os papelotes do p pra vender pra outro como eu, que
no passava mais sem ele. A branca que cada vez mais dificilmente
 me conduzia ao paraso.

No  fcil levar uma vida dupla, tritura a gente por dentro.
Fingir o tempo todo d uma canseira, um estresse. Eu no agentava
 mais, mas no tinha outra sada. E quando eu tentava desistir,
 o Srgio ainda me ameaava:

- No brinca em servio que os homens so da pesada,
nem querem saber. Agenta firme, cara, seja macho!

Eu fazia de tudo, dava todas as bandeiras prs velhos desconfiarem.
 Sabe, pensando bem, eu sempre pedi ajuda, mas de
um modo gozado, sacou? Larguei papelotes na gaveta da escrivaninha,
 quantas vezes fumei baseado no quarto e ficou aquele
cheiro forte e doce de erva queimada... Os velhos nem a. Pareciam
 no ver, ou talvez no quisessem ver, o que d na mesma.

S sei que as empregadas aqui de casa me olhavam de modo
esquisito, acho que tinham medo de mim. No entravam no meu

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quarto, davam mil desculpas, acho que eram mais sabidas que os
velhos, os velhos viviam naquele sonho dourado deles, do filhinho
 legal, incapaz de fazer certas coisas, ficava mais fcil do que
encarar.

Tem muita gente assim, que prefere viver fora da real. No
sei se  covardia ou um tipo especial de gente que no suporta a
verdade. Esse mundo podre que t a.

Ento, prefere fazer de conta: que tudo  perfeito, as pessoas
so bonitas por fora e por dentro, que no existe traio, falsidade,
 ganncia, que se compra quase tudo ou tudo com grana,
at os sentimentos mais fortes. At a dignidade do cara... E fica
olhando e no vendo, e continua fazendo de conta que t tudo
azul, do jeito que o astronauta viu da Lua, bonito, certo, direito,
um mundo sem guerra, sem dio, sem vingana, sem ambio
louca de vender a alma em troca de sucesso e grana.

Acho que os velhos eram esse tipo de pessoa. Eles no eram
covardes, eram alienados, queriam me ver como um garoto legal,
 responsvel, bom aluno, que s andava em boa companhia,
que nunca se meteria numa transa suja, servindo de mula pra
traficante de droga. Qual ? O filho deles? Nunca!

Aquele que tinha nascido o mais bonito do berrio, o mais
beb-johnson do mundo, lindo, inteligente, sem defeitos: perfeito
como andride de terceira gerao. Esse filho no tinha medo de
nada, no sentia falta do dilogo, no perdia sono nem apetite,
no repetia de ano, no entrava em parafuso, no transava nem
vendia droga - ah, esse filho maravilhoso que atendia pelo
nome de Igor, esse filho era eu, com a linda mscara que eles"
tinham feito e embalado por dezoito anos... S que, debaixo da
mscara de filho perfeito, vivia o outro Igor: apavorado, acuado,
ferido, meio morto, dividido entre o desespero pra conseguir
mais droga e a tristeza de se tornar um marginal. O verdadeiro
Igor que tremia de medo como criana abandonada, sem famlia
nem amor, largado como menino de rua porque tinha cortado o
cordo umbilical com aquele Igor do passado...

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Mas foi o Igor que sou agora, mentiroso e ladro, que levou
o maior tranco da vida quando entrou no colgio certa manh.
Tava um burburinho dos diabos, um falatrio. Todo mundo dando
 curto-circuito.

- O, cara, me diz a, aconteceu alguma coisa? Que confuso
  essa, baixou um ET por aqui?

- Pior que isso. Voc ainda no soube?

- Soube o qu, cara? Desembucha!

- P, o Srgio...

- Que  que tem o Srgio?

- Apagou, cara, apagou ontem. To dizendo que foi
overdose...

Fiquei ali parado, sem fora nem pra dar um passo... No
precisava usar muito a cuca pra saber o que havia acontecido.
Justo o Srgio, to auto-suficiente, to macho... que sabia de
tudo, que dava jeito em tudo... se achava to importante que at
ria quando eu dizia que tinha medo de ser apanhado:

- Que nada, cara, vai nessa... A turma faz vista grossa.
O Srgio que cada vez cheirava mais p... Ele era um dos

que no suportavam a real, nem tentava encarar. Ento substitua

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a real pela fantasia do p: o mundo tava uma merda. E da? Com
o p ele vira uma disneylndia, um paraso encantado!

Era cada vez mais difcil a gente conseguir entrar no paraso.
 .. Ento o jeito era aumentar a quantidade do p; do p e de
todas as porcarias que vinham misturadas nele... At que um
dia: ah, eu sabia to bem o que havia acontecido com o Srgio;
na nsia de conseguir de novo o paraso, o cara fica louco, descontrolado,
 ento se engana... Pela ltima vez na vida ele se engana:
 cheira uma dose maior do que pode agentar. A cocana
dispara o corao, a lydocana trava: e o cara apaga, to certo
como dois e dois so quatro... Onde  que eu tinha lido isso?
No era disso que eu morria de medo cada vez que cheirava o
p, aquela carreirinha maldita na minha frente? No era isso que
povoava sempre os meus piores pesadelos?

O Srgio to sabido, p, to cheio de si... Como ele foi
errar a dose? E o escndalo, agora? Iam descobrir tudo... a famlia,
 os colegas, o colgio. Meu Deus! Iam saber que ele era dependente
 de drogas, que era um presena. Ser que a coisa vinha
 tona, como um afogado que o mar devolve pra areia? E a minha
 situao, me diga, como  que ficava?

Fiquei sentado, esttico, sem vontade de me mexer. Podia
ter petrificado ali naquele instante... Minha vontade era sumir,
virar vento, fumaa, esquecer de tudo... Mas os papelotes tavam
na mochila, e tinha muita gente que esperava seco por eles, e eu
precisava de mais grana pra comprar mais papelotes, e ainda por
cima o traficante ia cobrar o que tinha acontecido com o Srgio,
pois o Srgio devia estar cheio de papelotes na mochila. Ser
que os velhos dele j tinham encontrado, ou foi a polcia?

Sa correndo do colgio como se tivesse o diabo atrs de
mim. Vaguei o dia inteiro, sem rumo, pelas ruas da cidade...
Cheguei em casa desnorteado, tarde da noite. Como de costume,
meus pais no estavam... Me joguei na cama, na pior. O que eu
ia fazer, o que eu ia fazer? Jogar os papelotes todos no vaso e dar
descarga? E como ficava sem o p? E os outros? E se o traficante
 soubesse disso? Se jogasse fora no ia ter grana pra comprar
mais. Como ia explicar isso? No tinha mais o Srgio pra me

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bancar, dar cobertura... o Srgio, p! Ele no podia ter feito isso
comigo, no podia, pensei.

Peguei um papelote, abri. Separei o p com a gilete em cima
de um espelho de mo, depois cheirei com um canudinho... Demorou,
 mas veio a iluso de felicidade: s que no era como
antigamente, estava diferente agora. Estava meio azeda, como
uma fruta passada que a gente comea a chupar e depois joga
fora... Durou bem menos que antes aquela sensao de estar na
maior, de euforia total... E mais cedo do que eu esperava, muito
mais cedo do que eu poderia suportar... voltei  realidade, ao
quarto solitrio,  casa vazia,  morte do Srgio, ao medo do
traficante, me sentindo acuado como bicho na floresta, sabendo
que os caadores esto chegando cada vez mais perto... mais
perto... At j ouvia os latidos dos ces no meu encalo...

O que posso fazer agora? Voc a, me diga. Posso ir me
drogando sem parar, pra no perder essa sensao de euforia, de
ver o mundo todo azul, um grande arco-ris de estrelas? E me
drogando e drogando... at errar a dose como o Srgio, e apagar
como a chama de uma vela que a gente aperta o pavio.

Seria to fcil apagar... Da, garanto, ia ser outro rebulio
como o de hoje l na escola... O colgio de novo em polvorosa,
o pessoal correndo de um lado pr outro, como formigas num
formigueiro destrudo: "O que foi, o que no foi, quando foi?"

Sabe, at imagino os velhos depois do resultado da autpsia...
 saindo do mundinho legal deles, do paraso particular
com grade alta em volta: "O qu? O Igor? No  possvel! Tem
certeza? Meu Deus, meu Deus, meu Deus!!!" A me desmaiando,
 caindo plida no sof, o pai esmurrando o ar: "Ele no tinha
o direito de envergonhar a gente desse jeito!"

Parece que vejo tia Zilah de tero na mo, chorando: "Coitado
 do Igor, que desperdcio de vida! To jovem, to bonito!" E
as empregadas se vingando: "Bem feito, roubava e punha a culpa
 na gente; procurou, achou. Bem feito!"

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E l estou eu, mortinho da silva, esticado, crispado, roxo,
de olhos esbugalhados, l no IML, cheirando a formol: "Puxa,
me, no fica assim. Pai, no fica to louco. Tia Zilah, no chora,
vai, e vocs a, suas tontas, curtindo com a minha desgraa, p!"

No tem outra. Ia ser mesmo um rebulio, os vizinhos entrando
 e saindo, justo o pai que detesta essas coisas... A famlia
toda em polvorosa: "J souberam? Que horror! Imagine, um garoto
 to forte, cheio de vida, acabar desse jeito..."

E notcia no jornal, na parte policial. As pessoas lendo e
comentando: "Que mundo srdido, t tudo perdido, esses jovens
de hoje s servem pra se drogar e se matar pelas drogas, por isso
 que no quero pr filho no mundo... So as ms companhias,
esses pais no tm responsabilidade, soltam os filhos por a..."

Coitado do pai, abrindo o jornal, morto de vergonha:
"Nosso nome na lama, o Igor jogou nosso nome na lama...",
repetindo sem parar, a me muito branca na mesa do caf pedindo:
 "Pelo amor de Deus, no leia mais esse jornal, Rogrio, esses
 jornalistas so como urubus em cima de carnia..."

Tia Zilah rezando pela minha alma, tero na mo, chorando
lgrimas fininhas que escorrem pelo rosto... E os meus colegas
comentando: "s vezes at que ele era legal, se no fosse a droga...
 Lembra daquela vez que a gente acampou? At que foi divertido".
 E os colegas que esperavam pelos papelotes se roendo
de dio: "Desgraado, apaga e deixa a gente na mo..."

NO! No quero apagar coisa nenhuma, no quero morrer
como o Srgio, o Rodrigo e tantos outros. Pelo amor de Deus,
me ajuda, me ajuda, foi por isso que eu liguei um nmero qualquer,
 pra pedir socorro, me aode, me d outra sada, qualquer
uma, qualquer uma, menos essa... Me ajuda, pelo amor de
Deus... ME AJUDA!

68


Silncio do outro lado do fio... Um longo silncio...

- S h um jeito - disse Juliana, como se estivesse prendendo
 a respirao.

Igor agarrou-se  esperana que a voz da mulher trazia:

- Qual ? Por favor, me diga, eu fao tudo!

- Vai precisar coragem, muita coragem.

- No sei se tenho... J no me conheo, no sei mais
nada...

- Procure a tia Zilah - disse Juliana.

- O qu, pra qu? Que droga  isso?

- Me escute, voc falou o tempo todo, agora me escute.
Ainda h salvao, e falo isso como se voc fosse meu filho.

- Eu no sou seu filho, nem voc conhece direito o seu
filho...

- Voc tem razo, sabe, me abriu os olhos, you dialogar
com meu filho, ele talvez precise de tanta ajuda como voc, mas
 do seu caso que estamos tratando agora: procure a tia Zilah!

Ele pareceu irritado:

- O.k., procuro a tia Zilah, e que porcaria vai dar isso, hein,
me diga?

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- Se abre com ela - continuou Juliana. - Mas se abre
mesmo. Conta tudo: que foi voc quem roubou as jias, que vem
roubando os seus pais e as visitas tambm e pondo a culpa nas
empregadas...

- Mas que grande coisa! Isso ela t careca de saber, at me
disse outro dia, e...

- E voc negou, no foi? S que agora voc vai assumir.
Est num beco escuro e sem sada. Voc tem de voltar pra encontrar
 a luz...

- Muito bem, me abro com a tia Zilah, at que  fcil. E da?

- Pede pra ela ir com voc falar com os seus pais, o Rogrio
 e a Renata. Voc vai se sentir mais seguro assim. Fazem uma
reunio de famlia, e ento vocs dois contam tudo para eles,
mas tudo mesmo!

- Beleza! - Igor at riu, um riso nervoso. - A casa vai
cair, a coroa vai ter um chilique e o pai  capaz de me matar...

- Ele no vai fazer isso, ele ama voc, a sua me tambm
o ama. Eles vo ficar chocados, eu tambm confesso que fiquei,
quando voc me contou. Mas da vai surgir a luz...

- Que diabo de luz  essa de que voc tanto fala? Voc
mesma disse que eu to num beco sem sada...

- Pra frente no tem sada, a vida  uma guerra, sabe? Est
na hora de voc recuar, voltar ao local de partida. Pra aquele Igor
legal, de antigamente, lembra?

- Voc  como os outros, pensa que um drogado no tem
carter, voc me considera um marginal, no  mesmo?

- No ponha palavras na minha boca, eu no disse isso.
Voc  quem falou que se sente dividido entre o Igor antigo e o
de agora... De qual deles voc gosta mais, hein, me diga?

Silncio... Depois a resposta:

- Eu falo com os velhos... e da? O que vai acontecer alm
da casa cair na minha cabea?

- Eles vo te ajudar.

- Tem tanta certeza assim?

- Tenho.  o que eu faria se voc fosse meu filho. E ainda
tem coisa a seu favor, seus pais tm posses, podem pagar um
tratamento adequado ao seu caso, h muitos...

70


- Beleza, t ficando cada vez melhor, de marginal passei a
doente, quem sabe voc pensa que isso pega, hein?

- No seja irnico, voc sabe muito bem do que estou falando.
 No sou especialista, mas  bvio que, de alguma forma,
voc est dependente. No  fcil, mas voc pode sair dessa.

- Ah,  problema de cuca? Quer dizer que os velhos vo
me mandar pr psica?

- Pode ser... mas vai depender mesmo  de voc, da sua
fora de vontade...

- Melou. Essa  que no tenho nenhuma mesmo. O que
voc quer dizer com isso?

- De sua determinao de no transar mais drogas.

- Ai, gracinha, voc usando gria... Quer dizer que alm
de ir no psica, esses baratos, eu tenho de querer largar a droga...

- Exatamente. E vai ser duro, cara, muito duro. Voc pode
largar a droga por uns dias, da vai ficar deprimido, desesperado...
 Ento pode ter uma recada, voltar pra ela, depois largar de
novo. Mas, se voc quiser mesmo, do fundo do seu ser, voc
consegue!

- Fica fcil voc falando assim... e se eu no conseguir?

- Vai ficar no beco sem sada... Sem sada mesmo: vai
repetir esse bendito primeiro colegial at ser expulso da escola, e
no vai ter coroa que ajeite. Vai virar marginal mesmo, assaltando
 pra conseguir a droga, ou sendo traficante de verdade, vai
rolar na sarjeta at errar como o Srgio fez e tomar uma overdose.
Da voc apaga e fim de papo.

- S isso? Ou tem mais?

- Precisa mais, cara? O que voc quer pra sua vida? Jogar
ela fora, assim to novo? Olha o Roberval...

- Que  que tem o Roberval? - Igor pareceu irritado com
a lembrana do outro.

- Ele  esperto, o verdadeiro esperto da histria. Agarrou
a sorte quando ela passou perto dele. Aproveitou a bolsa de estudos,
 t fazendo um curso brilhante, deve entrar na faculdade de
medicina. Se no entrar na primeira vez, ele no vai desistir, vai
tentar de novo at conseguir. Daqui a uns anos ser mdico, vai
casar, ter filhos... Uma vida til e rica de realizaes.

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- Pra com isso, sua coroa idiota...

- E um dia vocs dois vo cruzar na rua: ele j mdico,
isso se voc ainda estiver vivo, naturalmente, o que no garanto...
 e voc ali, na pior, cheio de tanta droga que nem sabe mais
quem  ou pra que veio pra este mundo.

- A  que voc se engana, o p me d bem-estar, me faz
ver tudo bonito... Eu agento esta porra de vida s com o p...
Sem ele eu no sou ningum...

- Mas voc , cara, voc ! Mesmo que queira jogar sua
vida no lixo, voc  algum. Vai chegar o dia, se j no chegou,
que nem o p vai te dar esse bem-estar mentiroso. No vai dar
mais, voc vai ter que encarar a sua vida, os coroas, o estrago
que voc fez na sua vida e na deles... Voc t bancando o otrio,
cara, o maior otrio que eu j vi, o esperto  o Roberval! Viu o
que aconteceu com o Srgio? Estendido l no IML, na mesa de
autpsia, a famlia no maior desespero. Onde  que ficou a
macheza dele, hein, me diga? No era o tal, no sabia de tudo?

- Voc no presta mesmo, voc  pior do que eu pensava.
Uma coroa prosa, cheia da verdade, voc comprou a verdade na
feira perto da sua casa, foi?

- No, eu no comprei a verdade na feira, porque ela no
se vende em feira. Ela t dentro da gente, quando a gente quer
ver... Pena que voc no queira... E no fica tomando o meu
tempo, garoto, pensa que sou a tua me, que no faz nada na
vida? Eu trabalho duro, tenho um monte de trabalho ainda por
fazer, vai procurar tua turma, me deixa em paz... Afunda a no
p, se acaba, apaga de uma vez e vira presunto do IML!

- Ei, pera a, no desliga, no. Olha, a gente pode se entender.
 .. Desculpe se eu te ofendi, vamos conversar...

- Pra qu? Pra ouvir voc dizer asneira, que quer se apagar
 como o Srgio, o grande macho do colgio? Ele sim era um
baita careta, um boboca, pensava que tinha a verdade na manga,
se ferrou...

Igor riu do outro lado do fio:

- To gostando, to gostando de ver... Onde foi que voc
aprendeu isso, hein, burguesa?

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- Com voc, seu burguesinho filho de papai, que nunca
soube o que custa alguma coisa na vida, que picha muro e quebra
 orelho, anda sem carta de motorista e paga propina pra
guarda... Sem grana voc no  nada, nada mesmo... Sabe o que
voc ?

- Sei, eu sei o que sou: um cara sem amor!

- E o que voc entende por amor? A tua paixo pela
Karina?

- Tambm, mas no  s isso... Eu sou um cara sem amor
porque no me sinto amado, eu no me sinto seguro. Me sinto
sempre numa corda bamba, sem rede embaixo. Pior que isso, eu no
tenho nenhum sonho... um sonho pra me dar uma razo de vida...

- Voc tem, sim.

- Ah, sua sabichona, qual  o meu sonho? Me diga.

- Ser mdico como o Roberval vai ser...

- Isso eu nunca you ser mesmo... Nem sa do primeiro
colegial. S cachorro vira-lata acreditaria nesse sonho.

- Quem tem que acreditar  voc, voc  o dono do sonho:
isso se tivesse coragem, claro, para largar a droga e investir num
projeto de vida, no seu sonho de ser mdico!

- Voc acha... que eu conseguiria? Se tivesse coragem,
claro!

- Vai precisar de muita garra, cara, no a coragem de
cheirar p e ir aumentando a dose, isso  fcil, d aquela sensao
 de euforia, n, de todo-poderoso, de superman... Coragem
mesmo  pra agentar a vida na raa, olhando de frente os podres,
 como voc mesmo disse...

- Essa coragem acho que eu no tenho...

- J experimentou pra saber? Voc nunca topou, voc
apelou. Como pode saber... se nunca tentou, de verdade?

-  muito pra mim, voc t pedindo muito.

- E a tua vida no vale isso? Voc no gostaria de estar
como o Roberval, um dia, na faculdade de medicina? Ser respeitado?
 Poder andar de cabea erguida, sem medo de nada, de ningum?
 Ser... livre?

- ... s vezes eu penso nisso... Ser livre desse pesadelo
deve ser legal. No ter medo que todo mundo descubra, de ir

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preso por ser mula, a vergonha dos coroas... tudo no jornal...
Puxa, deve ser bom viver livre desse jeito.

- Pois tente, cara, tente... Ainda  tempo, saia do beco,
encare a luz! Pode ser duro no comeo, mas depois... vai valer a
pena... Sabe o que disse um grande poeta? "Nesta vida morrer
no  difcil. O difcil  a vida e seu ofcio..."

- Essa, agora. Voc vem com poesia, corta essa, Juliana...
O mximo que posso prometer  que you pensar no assunto, t
bom? Voc foi legal e eu agradeo, eu you pensar no assunto.

- Vai pensar mesmo, tem certeza?

- you, you pensar em tudo o que voc me disse e no que
est acontecendo com a minha vida... Mas no sei se you ter
toda essa garra que voc falou, no...

-  a tua vida, cara, s voc pode decidir. O futuro t te
esperando... Vai depender s de voc... ser um vencedor ou ser
um candidato  overdose...

- Voc  dura mesmo, n? Voc falaria assim com o seu
filho?

- Falaria, acho que falaria, sim. Ia ajudar ele a sair do
poo, mas ia depender muito mais dele que de mim... como no
seu caso. Os seus pais, a tia Zilah, podem dar uma ajuda grande,
mas, no fundo, vai depender mesmo  de voc...

- Olha, s vezes eu tenho um sonho... to bonito! To num
grande hospital, muito limpo, to vestido de branco, e tem outros
como eu, homens e mulheres. Eu you de cama em cama, e o
pessoal sorri pra mim, sacou, os doentes, nas camas, e os outros
chamam por mim, de braos estendidos... eles s querem a mim.

- Da...?

- Da eu acordo e vejo que foi s um sonho. Mas ainda
fico um tempo com aquela coisa boa dentro de mim... aquela
sensao... nem consigo descrever... aquela sensao...

- De... plenitude,  isso?

- , p, voc conhece as palavras certas, hein?  isso a,
plenitude.  assim que eu queria me sentir o tempo todo.

- Isso leva tempo, trabalho, essa  a luz de que te falei...

- To bom assim?

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- Muito melhor.  a gente ter respeito por si mesmo, se
sentir til, realizar um sonho. Ningum vive sem um sonho...
Ele  to importante quanto o ar que a gente respira.

- Onde  que foram parar os meus sonhos?

- To perdidos por a... jogados no lixo. De alguma forma,
 voc precisa recuperar esses sonhos, voc precisa plantar
esses sonhos e cuidar deles...

- Como uma semente?

- Isso mesmo. O sonho  como uma semente que a gente
precisa cuidar todos os dias, todos os instantes, pra que um dia
ela possa nascer...

- Como um filho?

- ... como um filho.

- Voc acha mesmo que os coroas vo entender?

- No sei, nem voc nunca saber se no tentar.

- O que eu digo pra eles?

- O que voc falou pra mim. Que precisa de amor... Que
se sente perdido, abandonado, rfo...

- Eu no disse rfo...

- Mas pensou, no pensou?

- Voc  muito sensvel, eu gostaria que voc fosse minha
me...

- Voc tem a sua me e eu tenho o meu filho... A sua me
tambm pode recuperar o sonho que ela jogou no lixo... Vocs
podem nascer de novo, juntos!

Ele respirou fundo, do outro lado do fio:

- Eu you pensar, prometo que you pensar...

- Boa sorte, garoto, toda a sorte do mundo.

- Ei, pera a, voc no contou a sua histria: a gente fez
um trato e eu sou um cara de palavra...

- Deixa pra l, coisa to banal... Voc me deu muitas dicas,
 you levar um papo com o meu garoto... Olha, eu desejo,
sinceramente, que voc volte a ser o Igor de antes...

- Valeu... te cuida, t? Olha... eu vou tentar... eu vou tentar...
 EU you!

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O pssaro vem voando e bate contra a vidraa:  um beijaflor,
 e fica pairando no ar, minsculo helicptero...

Olha  sua frente e v outro pssaro, igual a ele. Ento agora
so dois que pairam no ar. De um lado, o pssaro verdadeiro, do
outro, o pssaro refletido na vidraa. O pssaro real no sabe
disso e continua ali, curioso, tentando alcanar o reflexo de si
mesmo.

Assim fica por longo tempo... o tempo que consegue suportar.
 Porm no desiste, quer alcanar o companheiro que 
to agitado e curioso quanto ele.

Acima do pssaro, a vidraa tem aberturas laterais. Se
voasse mais alto, encontraria a passagem para ele e para o outro
que ele julga estar preso.

Mas ele no faz isso. Apenas tenta ultrapassar a barreira
que o impede de chegar ao companheiro.

O pssaro  prisioneiro da sua prpria iluso. Da sala onde
o observo - torturado e infeliz, debatendo-se j extenuado -,
grito:

- Voe, voe, para o alto, para o alto! - Tento, de todas as
formas, indicar-lhe o caminho...

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Para mim parece to simples, to fcil. Mas ser que ele
me entende ? O que sei da linguagem dos pssaros ?

Vai depender mais dele que de mim. S mudando o curso
do vo transformar o seu destino: que pode ser, como agora,
uma dura vidraa; mas talvez seja... o espao infinito!...

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1

AUTORA E OBRA

Um escritor trabalha com os
mais variados assuntos, embora
muitas vezes no os domine num
primeiro momento. Qual  o segredo,
 o mapa da mina? O nico possvel:
 pesquisa e paixo.

A pesquisa  feita em livros,
reportagens de jornais e entrevistas
com especialistas. Um desafio e, ao
mesmo tempo, uma delcia! Cada
novo livro  como um mergulho
num oceano desconhecido, uma regresso
 ao primeiro estgio da vida,
quando ainda h tudo por aprender.

A paixo corre junto: o escritor escreve o que lhe arrepia a pele,
acelera o ritmo do seu corao.

Assim foi com este livro: li, pesquisei e falei com pessoas que
trabalham na recuperao de drogados, um trabalho rduo, cheio de
dificuldades. Mas essencial, na medida em que ajuda quem est perdido
 no seu caos, totalmente sem rumo.

A entra a paixo: sei de jovens que, por causa das drogas, arruinaram
 sua vida e a de suas famlias, numa trajetria cruel e desesperada,
 muitas vezes com um fim trgico.

E decidi trabalhar esse assunto to polmico, na tentativa de contribuir
 para que outros jovens no caiam na mesma armadilha. A respeito
 disso, todos concordam num ponto: prevenir ainda  o melhor
caminho...

Assim foi surgindo a histria de Igor - que pode ser uma pessoa
bem prxima de voc. Esse Igor real talvez tambm seja esperto o bastante
 para pedir ajuda, como fez o personagem deste livro. Ajuda da
famlia, dos professores, dos amigos.

Mesmo no fundo do poo, confuso, ele pode reencontrar a direo,
 se tiver coragem de dar um basta e tomar seu destino nas mos.
S assim ser verdadeiramente livre!

Giselda Laporta Nicolelis
